Robert Hugh Benson: “O Senhor do Mundo”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 09-10-2015

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Robert Hugh Benson:  “O Senhor do Mundo”. Cultor de Livros. São Paulo. 2013. 335 pgs.

O senhor do mundoUma nova tertúlia literária no programa de longevidade do Hospital, levou-nos até este livro. Um impacto. Alguém, no início, comentou com simplicidade: “Não li o livro, não consegui. Mas o problema devo ser eu, não o livro”. Bela postura de quem com a sabedoria da idade aprende a desconfiar das suas capacidades. Tudo o inverso do que acontece com a juventude: o problema seria sempre o livro, como o é o chefe (ate que depois do quinto emprego onde te dispensam começas a pensar que talvez o problema não seja a categoria maligna que os chefes representam, mas …eu mesmo).

Não é um livro fácil e a reação era de se esperar. A trajetória do autor  fazia suspeitar estes desafios. Benson, foi um pastor anglicano,  convertido ao Catolicismo, posteriormente ordenado sacerdote, e para maiores dados filho do arcebispo de Canterbury. Quer dizer, uma ruptura enorme incarnada numa vida. E esta vida da à luz O Senhor do Mundo. Um livro apocalíptico, que descreve os combates entre as forças do mal e Deus, o Anticristo personificado no Senhor do Mundo.

Os combates inicialmente são suaves, presididos pela indiferença. “A coisa mais agourenta é a calmaria. O mar está liso como azeite, a gente se sente meio desanimado e nada para fazer. Depois, começa a se formar a tormenta… A toda grande catástrofe precede esta calmaria”. Na indiferença reinante há quem conserva a serenidade, e impõe-se sem fazer barulho, como exemplo e bandeira dos ideias que estão sendo eliminados. É o caso da velha senhora, mãe de um dos ideólogos do novo regime sem Deus:  “Essa senhora sossegada não irradiava energia: sua força, por assim dizer, residia no pequeno tecido delicado da personalidade, feito de coisas frágeis para chegar a uma entidade mais significativa do que a soma de suas partes componentes. A morte de uma flor, Mabel refletia, é mais triste do que a morte de um leão; o quebrar de uma peça de porcelana fina, mais irreparável que a ruína de um palácio”.

As tensões que se iniciam como indiferença e desprezo dos valores eternos, evolui para formas sangrentas e impiedosas. Surge a decepção da protagonista: “Afinal não eram melhores do que os Cristãos; eram tão ferozes quanto aqueles contra os quais exerciam a sua vingança, tão tenebrosos quanto eles.(…) Era inaceitável que aquele monstro rapineiro, voraz, de cujas garras e dentes gotejavam sangue que se levantara  furioso durante aquela noite, pudesse ser a Humanidade que se tornara Deus”.

As explicações do marido, que comanda a implantação da nova ordem social, tentam confortá-la sem sucesso. “Minha querida, os homens não mudam de repente..” Como dizendo, são recursos passageiros, questão de momentos para facilitar a mudança. Acodem à mente as explosões messiânicas variadas da história, as revoluções –vermelhas, ou tricolores- que pedem desculpas pelo sangue necessário para catalisar as mudanças, e o sangue não acaba, e a mudança não chega….

Ou as revoluções pacifistas, os cultores da humanidade, candidatos a Senhor do Mundo, que eliminam preconceitos religiosos e cultos,….e acabam instalando um culto próprio. Ai está Napoleão com seu calendário de festividades, ou Augusto Comte, com sua reforma positivista, que elimina a religião tradicional para transformar-se ele em sumo sacerdote da sua própria religião, com cultos e liturgia incluída.

Na verdade, o ser humano tem necessidade da transcendência, e quando não se lhe permite praticar a religião, é preciso oferecer um substitutivo passageiro. Também aparece claramente no livro este aspecto. “Não haveria tanto clamor para se ter um culto se não houvesse uma real necessidade  (…) Todo culto –disse- envolve um toque de mistério, não se esqueça disso. Foi a falta disso que fez fracassar no século passado o dia do Império (…)  É tão difícil manter claro os nossos princípios; carecem de corpo, de uma forma de expressão. Não quero dizer que não se possa viver sem isso, mas o fato é que muitos não podem. Os que não tem imaginação necessitam de imagens concretas. Necessitam de um canal pelo qual externem seus pensamentos e aspirações”. Os protagonistas de Benson, como os positivistas, acabam descobrindo o que os escultores e arquitetos da idade média sabiam muito bem: os analfabetos, que não são capazes de ler, precisam de imagens que lhes ensinem as verdades da fé. Isso rendeu os magníficos retábulos das catedrais góticas, e tantas outras obras de arte.

A forma descritiva é de fato singular, grandiloquente, embebida de liturgia, latim e incenso. Mas o fundo tem atualidade surpreendente. É o que diariamente comprovamos com quem descarta qualquer crença ou religião, qualquer parâmetro moral, porque diz possuir os próprios….E, com o tempo, o vemos sucumbir às próprias paixões. Parece-me que foi Chesterton quem disse que  quando o homem não acredita em Deus, acaba acreditando em qualquer coisa.

“É preciso que isso se faça o quanto antes. Há milhares que tem o instinto para a adoração mas não sabem como satisfazê-lo”. É o clamor dos líderes sem Deus que buscam, desesperadamente, instalar um culto que venha saciar os desejos de transcendência. Mas o culto não funciona quando Deus não está no horizonte. Nem o culto, nem as festas, que tem por objetivo primordial dispor de tempo livre para render culto a Deus. Lembrei daquele livro magnífico que li na minha juventude, permitindo-me a compreensão do verdadeiro sentido das festividades: “Uma teoria da festa”, de Joseph Pieper. Um ensaio que desenvolve uma das grandes bandeiras do filósofo alemão: o ócio, o tempo livre, a festa, existe para o culto. Uma festa que não tenha como pano de fundo prestar culto ao Criador, perde o sentido, esvazia-se. Neste ponto, lembramos na nossa tertúlia quando se mudavam as festas que caiam durante a semana para a segunda feira….Ninguém sabia exatamente o que se comemorava, por que acordava mais tarde, qual era a celebração…..Sem culto, o ócio carece de sentido.

Eliminar Deus e as suas implicações, e fazer de conta que tudo segue igual, que é possível governar-se por uma ordem humanista universal…..O resultado é, como previsível, decepcionante. E a questão é que mesmo que se conseguisse eliminar a Deus, sobraria o problema terrível do orgulho. Fatalmente sucumbiremos diante dele. Aliás, vai ver que o único capaz de se opor ao nosso orgulho é mesmo Deus. Quando não há limites nem balizas externas, o homem torna-se parâmetro para si mesmo, e fraqueja enquanto contempla a própria impotência. Aquelas palavras tremendas, já comentadas neste espaço, voltam à mente: “Fiz isto, diz a minha memória. Não, eu nunca pude ter feito isto, diz o meu orgulho, e permanece inflexível. Finalmente, é a memória a que acaba cedendo”. O autor não é outro que Nietzsche, o promotor do Super-Homem, escola perfeita para promover Senhores do Mundo. Podemos liquidar Deus –Deus morreu, gritou o alemão- mas não daremos conta do nosso orgulho.

Nem todos os convocados puderam assistir a nossa tertúlia literária. Alguns tiveram imprevistos de última hora, e mandaram mensagens. Recolho esta que chegou, e que anoto textualmente: Pessoal, bom dia! Estou com um problemão e não conseguirei ir. Estava animada! Li o livro. É radical. Não faz concessões. Uma obra desconcertante. Ou provoca admiração ou provoca repudio. Mas nunca indiferença! Provocativo. Faz refletirmos sobre o sentido da presença cristã na história! Sinto não poder estar com vocês. Abraços

Um bom resumo da experiência vivida com o livro de Benson. Não apenas dos que estávamos presentes, mas de todos. Não somente dos que o leram, mas dos que ficaram no meio, desconcertados, perplexos, em silêncio. O silêncio é uma importante resposta, que caminha junto do ócio, da contemplação, do culto. E combate o orgulho com reflexão pausada e serena.

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