Albert Jovell. “Liderazgo Afectivo”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 27-10-2015

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Albert Jovell. “Liderazgo Afectivo”. Alienta Editorial. Barcelona. 2007. 227 pgs.

liderazgo afectivoFoi há poucos meses, durante um curso de verão, onde me convidaram para dar uma conferência. Lá conheci uma médica que dirigia uma iniciativa denominada a Universidade dos Pacientes. Depois vim a saber que se tratava da viúva deste autor –também médico, falecido de Câncer há alguns anos, após uma convivência fecunda e demorada com a doença. Fecunda, porque o processo de reflexão em que a sua moléstia lhe fez mergulhar, rendeu frutos incríveis. Entre outros, a Universidade dos Pacientes que agora dirige Maria Dolores Navarro, viúva de Albert Jovell. Conversei com ela, disse que tinha comprado há algum tempo vários livros do seu marido, e prometi que começaria a lê-los. Essa foi a largada deste interessante leitura.

O livro contém uma profusão de trabalhos científicos, principalmente de corte sociológico que apoiam as afirmações de Jovell. O autor adverte logo no início que os livros sobre liderança são na maioria histórias e opiniões, carentes de evidências científicas. Eu pessoalmente não concordo com esta opinião, por vários motivos. Por um lado, nem sempre é possível provar cientificamente os valores. Os estudos sociológicos são de corte qualitativo e, postos a ser exigentes, alguém poderia dizer que carecem de rigor estatístico. Por outro lado, há opiniões e histórias de alto poder construtivo: afinal, isso é a filosofia, e os modelos de pensamento que norteiam nossa vida. Seja como for, apesar das divergências, o trabalho de Jovell é notável. Percebe-se que o que lhe conquista são os valores –que são também na vida dele histórias e opiniões- e busca estudos para apoiá-los. Uma atitude desculpável –e louvável- num especialista em saúde pública.

Talvez por isso, o livro contém excesso de quadros e  resumos, como um manual do bom líder. Algo que me resulta pouco atraente, e penso que também ao próprio autor. Valha a desculpa de ter que “justificar cientificamente” o assunto que lhe ocupa. Para mim, não faz diferença; aliás, faz muita, porque gosto de ler os argumentos diretamente, não me importo com que sejam opiniões –cada um constrói as suas- e tiro as conclusões pertinentes. Um livro com excesso de roteiros e guidelines para conseguir atitudes –é disso que estamos falando, de uma atitude de liderança- me resulta incomodo. Mas, como tinha feito a promessa à Dolores, li os quadros em diagonal, e parti para o miolo do texto, que tem muito, e de grande aproveitamento.

Jovell aponta como origem do livro um artigo seu publicado em 1999, intitulado “Medicina baseada na afetividade”. Pelas minhas contas, coincide com o momento em que lhe diagnosticam a ele, Jovell, um câncer raro, de difícil tratamento. Os detalhes certamente se encontram em outro livro dele –que também adquiri junto com este, anos atrás- e que está na lista dos pendentes, conforme a promessa feita à Dolores. Chama-se: Câncer, biografia de uma sobrevivência.

Liderazgo Afetivo, centra-se no que Jovell denomina Capital Emocional: seja da empresa, do empreendimento, da corporação, ou de qualquer grupo de trabalho.  E logo nas primeiras páginas, num desses quadros que a mim pessoalmente não me agradam, estampa um dos maiores recados da sua obra: O líder afetivo é aquele capaz de gerenciar expectativas e produzir confiança entre os que estão à sua volta. Não necessariamente entre os subordinados porque, na opinião do autor, todos tem um papel preciso nas organizações, e uma liderança peculiar. Essa harmonia de lideranças –que necessariamente necessitam um maestro, isso é obvio- faz com que as pessoas experimentem no local de trabalho hospitalidade e segurança, um “lar psicológico”.

Outro ponto importante é saber delinear uma biografia afetiva da organização. Quer dizer, relatar, de modo explícito, o porquê das decisões tomadas, os verdadeiros motivos, e não apenas os resultados estampados em números, metas e índices. É o único modo de transmitir aos que virão depois, os valores reais da organização. Algo assim como o álbum de família, onde cada foto tem sua história por trás.  Eu pensava –no meio dos desafios que diariamente enfrento para convocar profissionais ao meu cenário de trabalho- que é necessário contar a história da organização, para que os que têm afinidade possam sintonizar com ela. Não basta descrever o trabalho a ser feito –job description– , nem discutir salário; é preciso relatar explicitamente o motivo que nos levou a entrar nessa empreitada. Para muitos não fará sentido; para alguns, será o diferencial que lhes atrairá.

O líder afetivo é essencial na sobrevivência das organizações em momentos de incerteza. Quando tudo está calmo, o líder passa desapercebido. Quando sobrevêm os Tsunamis, é onde sua presença se faz imprescindível. Um dos tsunamis mais perigosos é o que o autor denomina emoções tóxicas da organização. Atitudes, comentários, percepções e …..fofocas, que contaminam toda a organização. Por isso o líder deve ser um bom gestor de toxicidade. O capital emocional de uma organização é um ativo que pode se desvalorizar se não se gerenciam essas emoções tóxicas.

Entre as competências do líder afetivo está o manejo inteligente e consciente das emoções.  O motivo é claro: o líder é um gestor das necessidades emocionais de todos os envolvidos na organização. As necessidades que tem a ver com a autonomia (poder escolher o que se quer fazer, o modo de fazê-lo); com as relacionadas com a competência (sentir-se útil, efetivo); e, também com a afinidade que tempera o nosso dia a dia (sentir-se próximo dos outros), e todas elas congregadas  na autoestima. A motivação financeira –que tem sua importância- nunca ocupa os primeiros lugares em nenhum dos estudos sociológicos apontados por Jovell. Um dado que, devo reconhecer, aqui é essencial, para não ser creditado como simples opinião de CEO com sucesso.

Outro aspecto muito interessante e, por vezes, esquecido, é a relação necessária entre exercer a liderança e a percepção que a equipe tem do líder. Não há liderança se falta a percepção. Assim, por exemplo, liderar tem mais a ver com a percepção que se tem da inteligência do líder, do que com testes objetivos de QI.  Este é um dos grandes recados do livro, talvez o mais importante. A liderança está diretamente ligada à percepção que os seguidores –a equipe- tem do líder e das suas competências. A inteligência, a cultura, a capacidade de trabalho de nada servem se não são percebidas como tal. Essa é a grande diferença entre cultura –transitiva, ao serviço dos outros- e erudição, divertimento pessoal na edificação do próprio ego.

Entre estas percepções sobre o líder, a confiança é elemento essencial, e verdadeiro paradigma.  A confiança não se impõe, nem se conquista pela força, nem por argumentos. Inspira-se suavemente, a modo de encanto irresistível. Delicado e tênue, que sempre deve ser trabalhada, pois também quebra com facilidade. É esclarecedor o quadro que Jovell coloca e que aqui reproduzimos no original.

quadro-jovell-liderança

Para que o líder inspire confiança tem que ser percebido como alguém competente que se preocupa de fato com os outros. Se há preocupação, mas falta competência, produz-se apenas estima, afeição. Se falta preocupação, mesmo havendo competência, o resultado é o respeito. A confiança exige ambos elementos presentes e percebidos como tal: a competência e a preocupação real pelos demais.

Finalmente, deve se dizer que não aposta muito pelo carisma, mas pelo esforço, constância e estar focado nos outros. O grande risco do líder carismático é enamorar-se de si mesmo. Por isso, um dos atributos do líder afetivo é planificar adequadamente as reuniões, adapta-las a um tempo de duração determinado e realista, e conseguir os objetivos previstos nelas. A reunião é um recurso que agrega valor ao trabalho a ser realizado, mais do que um mecanismo de controle sobre a equipe. Quer dizer, mais esforço e planificação, sem necessidade de arengas proféticas que arrancam lágrimas dos seguidores.

Releio tudo o que escrevi, e me surpreende o aprendizado que entressaquei de quadros, diagramas, e classificações pouco atrativas. Quer dizer, a minha percepção do livro foi ótima e útil. Cumpriu o seu cometido. Liderou-me com eficácia. Vou enviar estas linhas para a Dra. Dolores Navarro, e reforçar a promessa de ler os outros livros de Albert Jovell que repousam na minha estante, à espera do momento adequado para me enfronhar neles.

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