Paul Thureau-Dangin: “Newman Católico. A fidelidade na provação”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 24-11-2015

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Paul Thureau-Dangin: “Newman Católico. A fidelidade na provação”. Cultor de Livros. São Paulo, 2014. 138 pgs.

Newman católicoEis um livro pequeno e delicioso que agigantou notavelmente a admiração que já professava por Newman. O título o diz tudo: as provações que John Henry Newman teve de passar como católico, e que ele mesmo resume magistralmente “Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião”.

Um tema do qual pouco se fala, talvez porque é eclipsado pela trajetória da conversão deste que é um dos grandes santos ingleses. A base da obra são notas íntimas e cartas que Newman mandou entregar a modo de testamento a  Wilfrid Ward, filho de William G. Ward, discípulo de Newman em Oxford e depois, quando também converso, um opositor do seu antigo mestre por considera-lo “pouco ortodoxo” do catolicismo.

É sabido que Newman escreveu vários milhares de cartas, e de muitas guardava copia.  Um fato que não é fortuito, se lembramos o que ele mesmo sugeria como base das biografias: devem fazer-se não apenas com o relato dos fatos, mas à luz dos seus escritos, principalmente das suas cartas, onde o espírito se desnuda, e nos aparece a figura biografada na sua verdadeira dimensão. E nestas cartas e notas percebe-se algo que nos conversos é virtude rara: a ponderação, a equanimidade que leva a buscar a compreensão para com todos, seja qual for o seu credo e atitude.

O Cardeal Newman é um amigo incondicional, que ama as pessoas e os antigos amigos da Igreja Anglicana, embora afirme que “a igreja de Inglaterra não tem em si mesma, lugar nas minhas ternas lembranças”. Por outro lado, ama a Igreja Católica, submete-se com obediência exemplar, abstraindo-se das pessoas que, essas sim, o perseguem e caluniam. Quer dizer, um homem focado na pessoa e não na instituição, quando se trata dos anglicanos. E focado na Instituição e não nas misérias das pessoas quando o que está em pauta é a obediência e fidelidade a Roma. Entende-se neste contexto a sua divisa cardinalícia: Cor ad cor loquitur. Um coração que fala ao outro, a empatia na sua forma mais pura e solidária, em concórdia, coração com coração, cum-cordis.

Dois tipos e pessoas, sobretudo, são alvo de sua solicitude: de um lado, os homens de grande cultura, que as dificuldades com as quais sua razão se defrontou conduziram ao agnosticismo; e do outro, aqueles que permaneceram na Igreja mas, contaminados pelas modernas correntes de pensamento, sentem-se abalados em sua fé. Recuperar os primeiros e tranquilizar os segundos, eis a tarefa a cumprir. Mas, para fazê-lo, é preciso antes de tudo conhecer, compreender, avaliar as dificuldades com as quais esses espíritos de debatem. Esse é também o Newman educador que se alia ao pastor de almas.

A liberdade que Newman prega, para buscar de peito aberto a verdade, gera anticorpos que se materializam em receios. Principalmente da hierarquia católica que teme afrouxar os controles, que lhes escape das mãos. Assim acontece com o projeto da Universidade Católica da Irlanda, onde Newman propõe trazer expoentes de cultura, e leigos alheios ao ambiente clerical. Uma liberdade que está na entranha do espirito educador e humanista de Newman, e que se distingue claramente do liberalismo, que postularia  a ausência de verdades objetivas, onde o corpo de doutrina não passaria de simples opinião.

Newman é um homem adiantado ao seu tempo, e o seu pensamento nem sempre era fácil de entender.  Não se encaixa em nenhuma classificação comum, não era possível colocar-lhe um rótulo, classificá-lo em alguma escola, algum partido. “Deus governa as coisas. Em todo caso, é desencorajador ter nascido antes da hora e ver-se desprezado e impedido sempre que se começa a agir”. As incompreensões vindas da alta hierarquia católica inglesa –Wiseman, Manning- lhe fazem sofrer, como São Paulo sofria com a intolerância do seu próprio povo, e das elites acadêmicas judaicas, optando por dirigir-se aos gentios. Mas, também como São Paulo, Newman tenta uma vez e outra a colaboração direta nos projetos católicos, sem encontrar aceitação. Sofrimento, este, que não abala a sua fé: “Mil dificuldades –anotou na Apologia Pro Vita Sua– não fazem uma dúvida”.

Refugia-se na oração, na cultura, na música. Tem gosto em tocar o violino: “Durmo melhor depois da música. Deve haver alguma corrente elétrica que passa das cordas, através dos dedos, até o cérebro, e que desce pela medula espinhal. Talvez o pensamento seja uma espécie de música”. E nos descreve a sua admiração pelos santos velhos, como S. Felipe Neri, fundador do Oratório, ao qual Newman pertencia. São os santos velhos –os que transpiram santidade no final da vida – os que venera especialmente. E isso porque os jovens tiveram pouco tempo de provação. “Sinto um espanto cada vez maior diante dos velhos santos. S. Luiz Gonzaga, S. Francisco Xavier, S. Carlos nada são perto de São Felipe. Os velhos tem  a alma tão rígida quanto o corpo, a menos que a graça os penetre e os suavize. Para isso é preciso uma torrente de graças”.

Quando Bento XVI viajou a Inglaterra para Beatificar Newman pessoalmente –um fato noticiado parcamente pela imprensa, se pensarmos na dimensão histórica da visita de um Papa a Inglaterra, de modo oficial, após quase 500 anos de ausência de diálogo- fez questão de incluir umas palavras do Cardeal Newman na cerimonia da Beatificação:  “Se os anjos tivessem sido os vossos sacerdotes, não teriam podido participar dos vossos sofrimentos, nem ser indulgentes, nem ter compaixão, ou sentir ternura por vós, nem encontrar motivos para vos justificar, como nós podemos; não teriam podido ser modelos nem guias para vós, nem vos teriam conduzido do vosso homem velho para uma vida nova, como o podem fazer todos os que provêm do vosso mesmo ambiente”. Conhecendo melhor Newman através deste pequeno-grande livro, entende-se o porque dessa viagem e a sintonia imensa que o Professor Ratzinger tinha com o seu colega cardeal  inglês. Dois interlocutores de um nível que o mundo de hoje dificilmente alcança, embora possa e deva aprender muito de ambos.

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