Milan Kundera: “A Identidade”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 15-12-2016

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Milan Kundera: “A Identidade”. Companhia das Letras. São Paulo. 2009. 115 pgs. 

a-identidadeAlguém já afirmou, a julgar pelos comentários que coloco neste espaço, que somente leio livros bons. É verdade que procuro assessorar-me antes de adquirir um livro, e de investir tempo na sua leitura. Mas o sucesso nem sempre garantido. Este é um dos casos.

Embora raramente presto atenção às frases pré-fabricadas que gotejam ininterruptamente na nossa caixa de e-mails, e no WhatsApp, desta vez me deixei seduzir por um breve texto sobre a amizade proveniente de um livro de Milan Kundera. Quis saber mais -a amizade é tema que me apaixona, na teoria e, muito mais, na prática- entrei na estante virtual, e com um click adquiri o livro.

Enganei-me. Sim, é verdade que Kundera fala em certa altura da amizade, mas o texto que me tinha chegado não era original, e sim devaneios de alguém a partir do pensamento do escritor Tcheco. Fala dos amigos, parece que dá importância, mas no fundo usa os amigos para promover o próprio ego. Diz assim, textualmente: “A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da sua memória. Lembrar-se do passado, carregá-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se diz, a integridade do seu eu. Para que o eu não se encolha, para que guarde seu volume, é preciso regar as lembranças como flores num vaso e essa rega exige um contato regular com as testemunhas do passado, quer dizer, com os amigos. Eles são nosso espelho; nossa memória; não exigimos nada deles, a não ser que de vez em quando lustrem esse espelho para que possamos olhar-nos nele”.

Quer dizer, o mundo que gira em volta de mim, do meu umbigo, que afinal é o que importa. Alguns espasmos filosóficos que parecem brilhar mas acabam no lugar comum que Kundera domina: o erotismo doentio e obsessivo. “Neste mundo onde cada um dos nossos passos é controlado e gravado, onde nas grandes lojas os circuitos internos de televisão nos vigiam, onde as pessoas estão sempre esbarrando umas com as outras, onde o sujeito não consegue nem sequer fazer amor sem ser interrogado o dia seguinte por pesquisadores e avaliadores… Como pode acontecer de alguém escapar a vigilância e desaparecer sem deixar vestígios? ”.

Um mundo umbilical de gosto muito questionável. Vejam esta pérola: “Toda mulher mede seu grau de envelhecimento pelo interesse ou pelo desinteresse que os homens demonstram por seu corpo” E, naturalmente um pessimismo que toma conta das 115 páginas que são completamente dispensáveis: “Hoje somos todos parecidos, todos unidos pela indiferença comum em relação ao nosso trabalho. E essa indiferença se tornou paixão”.

Kundera lembra Woody Allen nos seus piores momentos de baixa, quando o cineasta parece dizer: se você ainda acredita no ser humano, eu vou me encarregar de eliminar essa ingênua crença. Leio as páginas em diagonal, sem saber o que pensar, em silêncio, atordoado. Tropeço com esta frase que representa o meu estado de ânimo no final desta triste empreitada: “Administrar um silêncio diante dos olhos dos outros não é coisa fácil. Para onde devem aqueles dois dirigir seu olhar? Seria cômico se eles se olhassem olhos nos olhos sem dizer nada”

Pois é. Nada a dizer. Apenas tomar cuidado com os recados fast-food que nos chegam falsamente assinados e maquiados pelos filósofos urbanos de meia sola. Mas aprendi a lição e conferi o que já sabia:  A insustentável e tediosa leitura de Milan Kundera.

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