Petros Markaris: “Os amantes da noite”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 30-01-2017

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Petros Markaris: “Os amantes da noite”. Record. Rio de Janeiro. 2010. 477 pgs.

Os amantes da noiteNão costumo ler dois livros de um mesmo autor em curto espaço de tempo. Preciso de um repouso, deixar decantar as ideias e o estilo, arejar a mente, para, se for o caso, voltar depois, aberto às surpresas, com a esponja bem enxugada e o taxímetro zerado.

Como tinha transcorrido um tempo prudente desde a última leitura de Markaris, e estava buscando um romance para desanuviar, desentoquei esta aventura policial do Inspetor Kostas Xaritos que repousava na minha prateleira; na seção de pendentes, área que, por mais que leia, nunca consigo vencer, sempre cresce em ritmo desproporcionado. O que não deixa de ser um bom sinal: certamente acabará o nosso tempo nesta vida antes de darmos contas dos livros que gostaríamos de ler; mas, ninguém poderá dizer, que improvisamos as leituras ou que carecemos de um projeto de enriquecimento cultural.

Um filósofo do quotidiano. Essa é a pegada de Xaritos. Chega próximo do leitor. A trama é secundária, complicada. Nem falar da topografia de Atenas, com ruas desconhecidas para todos nós, engarrafamentos e sujeira.  Dá o recado social (de como está a Grécia), mas também não se perde nisso. O prato forte são, sem dúvida, os diálogos comandados pelo Inspetor Xaritos, o grande ancora do show, e as reflexões de fundo, que mostram suas debilidades e dúvidas. Todo o livro é um mano-a-mano entre os diálogos externos e as reflexões do inspetor de homicídios. Um par de exemplos para ilustrar:

O corpo do homem ia aparecendo…sem roupas, sem meias, sem sapatos, nada.

-Acidente? -Perguntei ao chefe da polícia- E o que ele fez com as roupas, tirou-as para não amarrotarem?

Ele me olhou como se olhasse aquele bigodudo do Hercule Poirot, que era cretense, mas não o confessava.

 

– O senhor tomou iniciativas sem informar ninguém. Não se comportou como um profissional, senhor comissário.

-Aqueles que construíram o Titanic também eram profissionais, senhor secretário geral – respondi. Entretanto, o mundo livrou Noé que era um amador.

Dentro da trama do livro que, como digo, é algo periférico, outro ponto alto – e divertidíssimo- é o relacionamento de Xaritos com a esposa, Adriana. Os diálogos e, principalmente, as reflexões, o que não se diz, mas se pensa, os bastidores.  “Os casamentos bem-sucedidos se alimentam dos contrastes. Adriana morre de medo das doenças, e eu dos médicos. Ela, assim que sente uma dorzinha, corre para fazer exame médico, e eu, com minha grande dor, digo deixa para lá, quem procura acha, vai passar. Até aquele momento a razão estivera comigo”.

Xaritos critica Adriana, mas não consegue prescindir dela, algo que nunca reconhece. É osso duro, não dá o braço a torcer: “O problema com o casamento é que começa lindamente e termina horrivelmente da mesma maneira: a partir da taquicardia dos primeiros encontros com a mulher dos seus sonhos, você passa para a taquicardia da convivência permanente com a mulher dos seus pesadelos. (…). Eu me espantava sempre por ver como ela conseguia conservar o seu bom gosto com todas aquelas peruas que via todo dia nas novelas vestidas como verdadeiras árvores de Natal. (…). Eu a admirava. Embora não houvesse entendido nada do que tinha sido dito (pelo mâitre, como sugestão de cardápio) conseguiu sair pela tangente para não trair sua cegueira.

Uma leitura amena, divertida, salpicada de momentos que te fazem rir sozinho sem que haja a mínima preocupação por adivinhar quem é o bandido da história. “Eu não tinha certeza se ela estava fazendo massagem nas costas dele, ou se as estava arranhando para tirar a sujeira. Seja como for, o barbudo estava gostando” (…). Para me levar a patrulhinha pegou um desvio por uma rua que tem o nome da primeira vítima da União dos Municípios e da Sociedade: Aristóteles.

Aliás, para que preocupar-se. Melhor deixar por conta do Inspetor Xaritos, que é sem dúvida quem atrai todas as confusões possíveis, e as resolve depois, para nosso divertimento e descontração. “Tem gente que volta de férias e nos traz geleias e doces. O senhor nos trouxe um cadáver -disse o subalterno de Xaritos”. Por tanto, relaxe e curta este romance policial. Isso sim, muito bem escrito, primorosamente traduzido, pois o texto flui como se o original fosse o nosso vernáculo. Um belo entretenimento.

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