Pierre Lemaitre: Até nos vermos lá em cima

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 26-06-2017

Tags: ,

Pierre Lemaitre. Até nos vermos lá em cima. (Nos vemos allá arriba. Salamandra. Barcelona. (2014). 443 pgs)

até nos vermos lá em cimaChegou às minhas mãos a tradução espanhola deste premiado escritor francês. Algo comentava a crítica de um romance policial, situado no final da Primeira Grande guerra. A verdade é que não encontrei a tal intriga policial por nenhum lado, e sim uma crítica contumaz à hipocrisia humana, em todas suas variantes: a pessoal, a do Estado, e a da própria sociedade.

Lemaitre descreve as venturas e desventuras (muito mais estas últimas) de três soldados franceses quando está para ser assinado o armistício no fim da primeira grande guerra. Um aristocrata sem escrúpulos, um artista de família rica, um plebeu com espasmos de heroísmo. Os elogios da crítica, e os prêmios conferidos imagino se devem à descrição das personagens que é, de longe, o ponto alto do livro. Um aspecto que certamente deve apreciar-se melhor quando se lê o original em francês.

Mas a trama sobre a qual se constrói o romance, é cinza, anódina. Como a própria guerra que critica sem piedade. “No fundo, uma guerra mundial não é mais do que uma tentativa de assassinato generalizado num continente (…)

As mulheres buscavam um filho, um marido, ensinavam fotos estendendo o braço. Sempre eram elas as que se moviam, as que continuavam sua luta silenciosa, as que acordavam cada manhã com um resto de esperança para esgotar”.

Julgamento impiedoso que critica a mentira hipócrita de um estado que louva os heróis desaparecidos, enquanto ignora os sobreviventes mutilados. “Édouard não pensou mais do que em sobreviver; e agora que a guerra acabou e está vivo, o seu único propósito é desaparecer. Se mesmo os sobreviventes desejam morrer, é um desastre”.

Aqui e ali, surgem personagens secundários, sempre delineados com maestria, como a esposa de um dos protagonistas:  “Madeleine não era uma aberração extravagante, era uma mulher sem amor. O homem de quem esperava um olhar de aprovação, o único que podia lhe dar segurança, era um homem ocupado”. Ou o funcionário público que gasta seus dias na rotina cinza:  “Havia nele algo profundamente egocêntrico. Como não tinha nada nem ninguém, nem mesmo um gato, tudo se resumia a ele próprio, e sua vida estava enroscada sobre si mesmo, como uma folha seca”. Ou mesmo a criada aventureira, “uma morena de cabelo curto, linda, porque em casa dos ricos tudo é bonito, até os pobres”.

Mas os atores, mesmo virtuosos, não conseguem dar vida a um filme que carece de um roteiro consistente. Essa foi a minha impressão quando acabei o livro; de vazio, quase de perda de tempo. Porque as personagens que impactam a imaginação -e a vida- dos leitores, o fazem por estarem inseridos numa trama sólida, ancorados numa história imaginável. Assim nascem os clássicos, que oferecem uma leitura permanente, que não se desgasta com o passar do tempo. Algo que no presente livro, brilha pela sua ausência. Pode ter sido premiado, mas nem sombra de sabor clássico.

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)