Boris Pasternak: “O Doutor Jivago”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 19-10-2017

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Boris Pasternak: “O Doutor Jivago”. Ed. Itatiaia Ltda. Belo Horizonte. 1984. 461 pgs. 

O doutor JivagoUma viagem a Rússia por conta de um Congresso, e a recente leitura do livro de Todorov onde se fala amplamente de Pasternak, contribuíram para bater o martelo e optar por este livro para a nossa tertúlia literária mensal. Embora eu tinha, lá com os meus botões -aquele senado que, no dizer de Machado de Assis, sempre vota ao teu favor- minhas reservas. Explico.

O filme de David Lean (diretor britânico idolatrado – A Ponte sobre o Rio Kwai, Lawrence de Arábia, Desencanto) foi o meu primeiro encontro -e único até o momento-  com Jivago. Em circunstâncias curiosas: assisti ao filme com alguns amigos, sendo ainda adolescente, e saltando as regras, pois não tínhamos idade suficiente para entrar. Foi durante umas férias, num cinema ao ar livre, como aquele que aparece em Cinema Paradiso, na praça de uma pequena vila.

Não entendi grande coisa -a revolução russa era assunto muito distante para um garoto de 14 anos-, mas fiquei um pouco indignado com Omar Sharif, o eterno Jivago nas telas. Lembrava vagamente de que estava casado com uma mulher linda (Geraldine Chaplin) e que por algum motivo acaba parando na cama de uma loira (Julie Christi) sem maiores explicações. E vai, de uma para outra, meio confuso. Guardei na memória, e nunca mais me interessei pela personagem… até que agora surgiu a ocasião.  Sempre pensei que não tinha entendido direito aquelas idas e vindas, talvez por conta da minha idade ingênua.

Logo nas primeiras páginas do livro, agora passados os anos, é fácil entender a desorientação de Jivago, uma sina que o acompanha durante toda a vida… como já tinha suspeitado quando vi o filme. Escreve Pasternak: “Iuri tivera uma infância desordenada e repleta de enigmas perpétuos; estava sempre em casa de estranhos, que nunca eram os mesmos. Acostumara-se a essas mudanças e, em meio a tão permanente confusão, já não se admirava da ausência do pai”. O pai ausente e o enterro da mãe, são a abertura do livro. O tio, um clérigo secularizado, toma conta dele; até certo ponto, porque é um filósofo reacionário que também não se entende com os revolucionários, já que “refletia sobre os mesmos problemas que eles (os agitadores), mas que, além da terminologia, nada tinha com eles em comum”.

Do outro lado, surge Lara, a que dá nome ao tema musical que se fez famoso, inseparável do filme. A mãe de Lara, uma mulher sofrida e insegura que se “assustava com a menor coisa e tinha receio mortal dos homens. E era justamente o medo e a tolice que a faziam constantemente cair nos braços deles”. Komarovsky, o amante aproveitador, de mãe e filha, é outra personagem tão detestável quanto real. E Pasha, o marido de Lara, que se transforma no líder revolucionário Antipov e que mudou tão completamente “que no dia seguinte já era outro homem e quase se espantava de continuar a ter o mesmo nome”. Seguem-se, como é de praxe nos romances russos, um sem fim de personagens secundários, de nomes complicados, e atuações periféricas que nada afetam à trama principal. Uma mistura que, confesso, levou-me a ler bastantes páginas em diagonal, porque as descrições tornam-se tediosas. Pasternak não é Dostoievski, nem Tolstoi, e a descrição das personagens carece da profundidade psicológica de outros clássicos russos.

Quem é afinal Jivago? Após ler o livro, revi o filme e, curiosamente, as impressões que julguei ingênuas por atribui-las à minha idade de adolescente, não mudaram grande coisa. Jivago é um sonhador. Um médico que na realidade quer ser poeta, de fato escreve, e a poesia é comprometedora com o regime revolucionário. Quer dizer, um alter ego de Pasternak. O que lhe salva é a rotina que, por outro lado, não lhe entusiasma. “Teria ficado maluco sem seus pequenos hábitos, seus trabalhos, suas preocupações. Salvaram-no a mulher, o filho, a necessidade de ganhar dinheiro. Foi salvo pelo cotidiano, o humilde, o rotineiro, por suas tarefas, pelos cuidados que dispensava aos doentes”. E vive da sua profissão, “Não adianta bancar de grão-senhor e recusar os honorários, tenho finalmente de aceitá-los, porque as pessoas não creem na eficácia dos conselhos gratuitos”. Mas dedica o melhor dos seus esforços à poesia, e aos sonhos onde, uma vez e outra, Lara aparece, assim como a própria família, numa indecisão vital, reflexo de uma carência quase patológica.

A revolução e a crítica que o autor lhe dirige de modo contumaz, é elemento sempre presente. “Cada qual se preocupa em verificar suas ideias pela experiência, ao passo que os homens do poder, esses, fazem o que podem para dar as costas à verdade em nome dessa fábula que forjaram sobre sua própria infalibilidade (…) Então a mentira caiu sobre a terra. A principal desgraça, a fonte do mal vindouro, foi a perda da fé na opinião pessoal. Imaginou-se que o tempo em que se seguiam as inspirações de senso moral estava passado, que agora era preciso embargar o passo dos outros e viver de ideias estranhas a todos e impostas a todos. A tirania da frase não deixou de crescer desde então, a princípio sob uma forma monárquica, em seguida sob uma forma revolucionária. Esse desvario da sociedade apoderou-se de tudo, contaminou tudo”.

Massas revolucionárias, brancos e vermelhos, praticando atrocidades de um lado e outro. “Tudo que se passa em torno de nós, tudo se faz em nome do homem, para defesa dos fracos, para bem das mulheres e das crianças (…) É sempre assim Já nos custa tanto ver as coisas claras e tua ainda vais buscar coisas que fazem os olhos saltarem da cara. Fazem-me patifarias e dizes que é no meu próprio interesse”. É a queixa de Lara contra os abusos contínuos que contempla e da qual é objeto. Uma guerra civil dominada pelo espírito gregário que “é sempre o refúgio da falta de dons”. E fronteiras muito tênues entre uns e outros, porque como acertadamente anota o escritor, “somente na literatura é que os vivos estão divididos em dois campos e não tem nenhum ponto de contato. Na realidade, tudo anda tremendamente misturado. É preciso ser duma irremediável nulidade para desempenhar um só papel na vida, para ocupar o mesmo lugar na sociedade, para significar sempre a mesma coisa”

Pasternak sabia que sua obra maestra não poderia ser publicada na Rússia de Stalin que, por motivos desconhecidos, deixou o escritor tranquilo. O ditador respeitou seu trabalho, não o incluiu entre os que eliminou junto com a própria memória da história. Mas daí a arriscar todas as fichas com este romance, já é outro assunto.

Quem é Jivago? Um alter ego de Pasternak, pela afinidade nos escritos politicamente incorretos? Sem dúvida, esse é um ponto de semelhança. Mas, como já adverti no início, o livro de Todorov, jogou uma luz diferente sobre a personagem do médico-poeta-sonhador-desorientado. A gangorra afetiva entre a família e a amante, o homem fraco nas decisões e poético nas expressões, alguém que não entende o sistema nem se entende a si mesmo, tem uma analogia incrível com a própria vida de Boris Pasternak. Amava a família, e a dividia com a amante. A primeira delas, Tsvietaieva, morre cedo, e o escritor lhe promete não um réquiem, mas um hino: isso é o livro de Jivago. E, depois, outra amante, a Ivinskaya, que sustenta sem separar-se da família que também diz amar. Essa divisão vital Pasternak a reflete na descrição que faz de Jivago: “Mas esse desdobramento permanecia doloroso e Iuri Andreievitch habituava-se a ele, como se pode a gente habituar a um ferimento incurável que se reabre muitas vezes”. Uma descrição que, muito provavelmente, aplicava a si mesmo.

Afinal, o que se pode afirmar de Dr. Jivago? Uma obra maestra? Tem quem assim o qualifica, enquanto para outros é um melodrama enjoativo, sem muito nexo. Isso sim, grande e extenso, multifacetado como a própria alma russa. Eu prefiro pensar que o romance do Nobel russo é um reflexo da sua própria vida. Parece-me que as minhas lembranças de adolescente, não estavam totalmente equivocadas.

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