O insulto : O itinerário quotidiano para o Perdão

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 18-11-2018

(L’insulte). Diretor: Ziad Doueiri. Guion: Ziad Doueiri, Joelle Touma. Intérpretes: Kamel El Basha, Christine Choueiri, Adel Karam, Camille Salameh. 110 min.

Recomendou-me o filme um grande amigo médico, que iniciou os estudos de medicina na Europa, creio recordar que na Romênia, e acabou o curso no seu pais, Líbano, em momentos conturbados. Medicina aprendida na trincheira, no sentido estrito da expressão. No fogo cruzado de uma guerra fraticida -como todas as guerras civis- onde sempre aparecem os que “vem dar uma mão de um lado e do outro”, a acabam complicando as coisas porque não entendem as profundas raízes do ódio…..nem, muito menos,  o caminho do perdão. Porque existe o perdão, quando há grandeza de coração e visão ampla, na tentativa de compreender o outro.

Lembro por exemplo que, muitos anos depois, assisti com esse amigo a um jantar onde alguns colegas -originários ou descendentes de Libaneses- estavam lançando o projeto “Hakim”. Explicaram-me ser essa a denominação de médico -e também de sábio- nos países do oriente médio. Um dos que conduzia a reunião, aproximou-se do meu amigo, deu-lhe um abraço, sendo correspondido com igual afeto. “Bom rapaz -me disse, quando depois sentou-se do meu lado-. Nos levamos muito bem aqui no Brasil. Os militantes que mataram meu pai na guerra do Líbano eram da fação dele”. Passaram-se muitos anos, mas a imagem do sorriso do meu amigo -franco, aberto, sem um pingo de ódio ou rancor- permanece viva na minha memória”. E reviveu com luz nova ao tempo que desfilavam os fotogramas do filme que nos ocupa.

Um incidente, aparentemente sem grande importância, entre um libanês e um palestino que trabalha na construção civil. Essa é a largada do filme, um detalhe, um equívoco, um insulto, e toneladas de ódio acumulado. De um lado e do outro. Pessoas boas -os dois- com famílias para sustentar, a vida para ganhar com o trabalho, e uma mágoa engasgada que vai crescendo como bola de neve, como as neves das montanhas do Líbano.

O filme, em si, desenha uma situação que em visão rápida e superficial, pode parecer exagerada. Tamanha confusão, por um simples detalhe, por uma exclamação pouco elegante? O assunto se encerraria por ai….mas algo entra em ressonância com o nosso interior. A memória encarrega-se de lembrar-nos os detalhes -ridículos para um observador externo- que se agigantam até alturas incríveis, como os cedros do Líbano, alimentados pelo orgulho, um nutriente eficaz do ódio. De fato, as diferenças -de opinião, de perspectiva- são café pequeno, mas funcionam como uma cunha que permite o gotejamento da soberba, e daí sim, o desentendimento assume proporções gigantescas, e se arrasta por gerações. Seria , em teoria, fácil desmontá-lo, mas lá vem ninguém menos do que Nietzsche para explicar a fisiologia do fenômeno, quando anota: “Fiz isto, diz a minha memória. Não, eu nunca pude ter feito isto, diz o meu orgulho, e permanece inflexível. Finalmente, é a memória a que acaba cedendo.” Assustador, tremendo, mas real. E de uma fonte nada suspeita.

O insulto que dá título ao filme, e nos introduz nesta reflexão que produz vertigem, é o estopim que faz destampar a rolha do ódio comprimido, da amargura que apodrece interiormente. E lá aparecem- bem sabemos por experiência- uma lista enorme de agravos, que fomos capitalizando com o tempo, e que renderam polpudos dividendos. Estavam escondidos, quiescentes, como os médicos denominamos os bacilos que ficam à espreita da queda de imunidade. E quando a imunidade cai, a rolha não aguenta o tranco vulcânico, e desabrocha a erupção em dimensões assustadoras.

O que fazer? É preciso buscar caminhos para pedir perdão, deixar a água correr, impedir que fique parada e apodreça. Para tal, nada como praticar a atitude diária de pedir desculpas, e de outorgar o perdão em assuntos de pequena monta. Funciona igual que os temas éticos: quando se reserva a discussão ética para assuntos de vulto, geralmente não se acerta porque se “perde a mão, a sensibilidade ética” do quotidiano. No cenário médico que me ocupa diariamente costumo dizer que é preciso praticar a ética da aspirina, quer dizer, do dia a dia; saber sorrir, dar bom dia, receber o paciente com otimismo e aconchego. Quem omite estes detalhes, fracassará nos “grandes desafios éticos”, aqueles que ocupam mesas redondas nos congressos de bioética, e com os quais quase ninguém se topa na vida profissional. A ética sintomática do quotidiano: essa é a conquista diária a ser conseguida. Na medicina e, naturalmente, na vida e no convívio com os semelhantes. Ensaiar,  de modo cordial, o pedir perdão nos detalhes sem esperar uma guerra civil para outorgar a anistia ao inimigo.

O desafio é que a guerra civil -felizmente- é coisa muito pouco frequente, mas as ofensas e desentendimentos podemos apalpá-los diariamente. E ai que o bicho pega, e temos que nos posicionar, com uma atitude ética que valoriza os detalhes. E, também, facilitar o perdão dos outros, utilizando artimanhas curiosas, criativas, como o filme mostra. Às vezes, para que os outros peçam perdão, ou para nós mesmos concedê-lo, é preciso uma calçadeira delicada, que alavanque o processo, de modo simples. Tirar importância, saber sorrir como diz Bergson no seu ensaio sobre “O Riso”, que tira força a qualquer tragédia.

A prática de entender o ponto de vista alheio rende grande sabedoria, porque nos ajuda a posicionar-nos no mundo. Não posso deixar de citar um comentário que li recentemente vindo de um grande conhecedor do tema: o Papa Francisco, um pastor com muitas milhas de voo, com farta experiência no assunto. Dissecando de modo prático e popular o famoso canto à caridade de São Paulo, anota Francisco: “Ter paciência não é deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar agressões físicas, ou permitir que nos tratem como objetos. O problema surge quando exigimos que as relações sejam idílicas, ou que as pessoas sejam perfeitas, ou quando nos colocamos no centro esperando que se cumpra unicamente a nossa vontade. Então tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade. Se não cultivarmos a paciência, sempre acharemos desculpas para responder com ira, acabando por nos tornarmos pessoas que não sabem conviver, antissociais incapazes de dominar os impulsos (…) Esta paciência reforça-se quando reconheço que o outro, assim como é, também tem direito a viver comigo nesta terra. Não importa se é um estorvo para mim, se altera os meus planos, se me molesta com o seu modo de ser ou com as suas ideias, se não é em tudo como eu esperava.  O amor possui sempre um sentido de profunda compaixão, que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, mesmo quando age de modo diferente daquilo que eu desejaria”

Um belo programa, sugestivo e prático, para exercitar-se na ética da aspirina, do sorriso cordial, da facilidade em desculpar, em tirar importância aos atritos da convivência diária. Um programa magnífico de prevenção contra rolhas no vulcão, e erupções que amargam a vida alheia e a nossa. Enfim, um caminho que sobe em plano inclinado de fácil percurso, um itinerário quotidiano do perdão, que nos conduz às alturas onde se pode contemplar o mundo com serenidade. Como nos montes do Líbano, à sombra dos cedros milenares, desfrutando a paz que o coração humano merece.

 

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