Luís Henrique Pellanda: “Detetive à Deriva”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 25-11-2018

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Luís Henrique Pellanda: “Detetive à Deriva”. Arquipélago Editorial. Porto Alegre. 2016. 223 págs..

 

Sempre é um desafio ensaiar um resumo de um livro de crônicas. Falta o fio condutor, o argumento sobre o qual podemos ir tecendo nossas filigranas reflexivas. Talvez por isso resisto aos livros de crônicas, não lido bem com colcha de retalhos. Mas algumas vezes, como neste caso, tropeço com uma linha que costura todas minhas considerações…..É sutil, delicada, mas forte; como a que agarra o peixe sem esperanças de fugir. Não consegui me livrar de uma leitura serena -pausada, em cômodas prestações, tudo seja dito- destes contos do detetive curitibano.  Uma linha estética, o estilo, desenhado num português familiar, intimista, e ao mesmo tempo, elegante. Lembrou-me Drummond, autor que frequento vez por outra, quando sinto necessidade de renovar meu vocabulário e polir o estilo na escrita. Aprendi isso faz muitos anos com um amigo, escritor, poeta, magnifico conferencista, que em certa ocasião, durante uma viagem, me disse: “Observei que andas carregando um livro de Drummond. Podes me emprestar? Estou escrevendo e preciso de vocabulário”

A escrita  de Pellanda é o que te agarra, te leva da mão nos passeios urbanos, e no final deixar um ótimo sabor no paladar. Quando se lê,  parece fácil,  esse modo de escrever, de dizer; é até lógico, evidente. Pavarotti dizia que a partitura de La Boheme é sempre a mesma…depende de quem a canta…..A língua na sua exuberância e simplicidade, o léxico do vocabulário está ai para quem quiser -e puder- tocar e harmonizar.

O detetive à deriva transita por ruas e parques da capital paranaense. Ama Curitiba, e canta aquele território próximo à Praça Tiradentes “como um jardim de ingenuidades”. E tropeça com personagens -reais ou fictícios- que descreve com singela elegância, e eles se apresentam diante de nós com realismo impactante: “elementar, meu caro Watson”, é a função do detetive que revela a evidência. Lá aparece o sujeito “apenas de camisa, desobrigado da cerimônia”, e o velho que carrega a menina: “me garantiram que foi alguém um dia, e não somente este carregador de anjos sonolentos…..ainda precisava transportar os seus bens mais preciosos, o capital da sua alma, suas últimas esperanças. Percebi que, às vezes, o que nos define, mais do que nós mesmos, é a carga que nos coube”.

Lá aparecem as padarias, que “à noite são como balcões de desejos simples, iluminados. Em geral não perguntamos uns aos outros os nossos desejos, isso bagunçaria demais o mundo. Assim, para manter um mínimo de ordem nesta cidade, me forço a responder, humilde: eu desejo pães”. E os ônibus de Curitiba, exemplo de mobilidade urbana, que outros importaram (lembrei de uma viagem a Colômbia, onde os amigos de Bogotá explicaram que tinham se inspirado em Curitiba para instalar o seu Transmilenio). A viagem de ônibus, a mulher que desce e começa a chover, enquanto “alguém lhe oferece um guarda-chuva, e o braço num baile passageiro …ou a moça que o escritor resgata de um avance desavisado no asfalto, retirando-a a tempo de evitar um acidente, como um anjo que por lá circulava”. Não falta também aquele que insiste em oferecer uma ajuda que ninguém lhe pediu, e até que pode chegar a ofender, É preciso sensibilidade para ajudar sem humilhar, sem estar por cima, daí a advertência de que  “o brasileiro é autoritário até na caridade”,

Balcões, varandas, e urubus, seus vizinhos do telhado, de onde contempla o a amanhecer. “Afinal, o maior evento a madrugada é mesmo o regresso do dia, este milagre recorrente a que vão assistir, descabelados, sempre que a luz resolve voltar, quem sabe se pela última vez, ao nosso convívio”. Olha com espírito de novidade desde a sua atalaia e filosofa: “Somos proprietários das vistas. Donos do contorno azul da Mata Atlântica e de cada onça a se extinguir naquelas montanhas. Todos os dias nos furtam um trecho da paisagem, uma muda de manacá, um filhote de graxaim. Mas não, não há delegacia que registre queixas dessa natureza”.

E o canto do quotidiano: “Nunca gostei de efemérides, celebrações, eventos especiais. Sempre preferi os dias simples, em que a rotina nos protege, meio sem querer, da teatralidade às vezes nociva das cerimônias e convenções.” E as minúcias dos caprichos: “Meu canteiro de tomates…os frutos que, num momento irresgatável de otimismo, eu mesmo havia plantado”. Isso,  mesmo sabendo que “a poesia nem sempre resiste à vida prática” sendo preciso extrair poesia do diário cinzento.

Talvez por isso, o autor vai deixando cair, ao longo das suas investigações detetivescas, a teoria sobre o que é ser um cronista, o perfil do detetive. Saber olhar com agudeza é essencial, valorizar os detalhes que para outros, desavisados, nada significam: “Afinal, se eu não vivesse aberto a desperdícios, se eu fosse de desprezar os acasos, jamais poderia ser cronista (…) Nossa paixão pelas grandezas pode ser, no fundo, só um desvio, uma perversão que nos domina com o avançar dos anos, com a evolução da curiosidade. (..) O cronista é, sobretudo, um cortejador de coincidências, e é esta condição que me leva a amarrar as pontas soltas deste e daquele acontecimento,  e emaranhá-las com certo arremedo de técnica e arte até chegar a um novo laço, um nó original”.

Confesso que juntando agora estes recados que fui pinçando na leitura do livro, se me apresentam com um magnífico estímulo para despertar o cronista que todos levamos dentro. Assunto sempre temos, as histórias de vida, da nossa e da alheia: “Dos cronistas, sempre querem saber se não sofrem de falta de assunto. Quando me perguntam, banco o forte, digo que sofrimento é uma outra coisa, há carências piores…..O cronista é um dançarino acidental, e a natureza, sua melhor coreógrafa”. 

Vale o recado, basta papel e lápis, se o teclado se mostra sobremaneira solene, como sugerindo que se escreve diretamente para a publicação. Afinal, escrevemos para nós mesmos, para entender-nos e para estabelecer vínculos muito mais eficazes do que um simples compartilhar mensagens. Estou cada vez mais convencido de que o compartilhar (encaminhar, como acusa agora o WhatsApp para proteger direitos de criatividade) é o atalho confortável que dispensa a reflexão: compartilham-se assuntos, mas poucos se dão o trabalho de pensar sobre eles. Um engano cibernético, um analfabetismo digital. Escrever, sem preocupação, sabendo estabelecer pontes sólidas, e não redes fictícias. Mesmo que não saibamos porque escrevemos, mas sentimos a imperiosa necessidade de fazê-lo. Ai está o último recado do detetive: “Escrevo crônicas, e uma crônica, muitas vezes, é só um exercício compartilhado de desesperança”.

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