Theodore Dalrymple: “Em defesa do preconceito. A necessidade de se ter ideias preconcebidas”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 02-12-2018

Theodore Dalrymple: “Em defesa do preconceito. A necessidade de se ter ideias preconcebidas”. É Realizações. São Paulo. 2015. 141 págs.. 

 

Aventuro-me novamente na leitura pausada de um livro de Dalrymple, sabendo de ante mão o que vou encontrar: a clareza do óbvio, impacto que gera reflexão. Como bem aponta o prefácio (do Reinaldo de Azevedo, o que também não me estranha), é um desses livros “que reorganizam nossa experiência”. Quer dizer, mais do que novidade, trata-se de um olhar perspicaz sobre a realidade que nos rodeia, aquela que passa desapercebida, por desaviso, ou mesmo, por omissão, por não querer pensar.

Vivemos momentos onde qualquer preconceito -ideias importadas que não são de fabricação própria- tornam-se suspeitas. Tempos de ceticismo e de questionamento de toda autoridade. Embora, adverte o escritor inglês, “são poucos os que se mostrarão céticos a ponto e duvidar que o Sol surja amanhã, muito embora eles tenham certa dificuldade na hora de oferecer evidências sólidas que sustentem a teoria heliocêntrica. Os mesmos que acreditam que, ao apertar a tomada, a luz se acenderá, mesmo que lhes falte qualquer conhecimento sobre a teoria da eletricidade. Todavia, um feroz e insaciável espírito investigativo os domina por completo no exato momento em que percebem que os seus interesses estão em jogo”. Quer dizer, um preconceito seletivo porque é notório que “o amor pela verdade, embora exista, é geralmente mais fraco que o amor pelo poder”.

São muitos os que pensam que a qualidade mais importante de um ato ou de uma opinião não se associa a sua correção, ou ao esforço para se atingir a verdade, mas simplesmente em ter uma opinião própria. Essa seria a grande qualidade. Aquilo de “a minha opinião é tão valida quanto à sua”, como se tudo fosse questão de opinião (vale a pena consultar a provocadora obra de Hannah Arendt, Verdade e Mentira em Política). Daí o famoso “tudo é válido. Ou pior, é autêntico, quer dizer o que conta é a transparência, mesmo que esse despudor revele uma ignorância supina. Há que livrar-se da opinião herdada, como se fosse inimiga da humanidade”.

A luta sistemática contra o preconceito é uma espécie de apologia de pessoas que na prática não existem. Figuras “virtuosas, suscetíveis ao entusiasmo moral e aos prazeres da culpa, que saem mundo afora todas as manhãs com a mente fresca sabor de hortelã, uma tábula rasa, da qual foram eliminados o conhecimento prévio e experiencia das pessoas e das coisas. É como se a vida virtuosa exigisse que se vivesse cada momento como se o mundo fosse recriado novamente, e nenhum momento tivesse conexão com qualquer outro momento”.

O alcance pedagógico de fugir, por sistema, de toda ideia preconcebida é certeiramente colocado; “Que tipo de pai ou mãe são esses que se mostram incapazes de dizer ‘não’ aos seus filhos, quando os últimos querem algo que lhes é impróprio? Não é de surpreender que ao informar os pais sobre o mau comportamento de seus filhos, os professores tenham de lidar com pais que tomam esse tipo de advertência como insulto pessoal e jamais culpam os seus filhos, os quais constituem os limites externos  dos seus próprios egos. (…) Um preconceito cego a favor da autoridade constituída foi substituído por outro preconceito cego, o qual vê em qualquer autoridade, exceto aquela que emana da própria pessoa, algo inerentemente ilegítimo (…) Uma sociedade tão livre de preconceitos de modo que não seria permitido aos pais se preocuparem mais com o bem estar de seus próprios filhos do que com o de qualquer pessoa, e que realmente não sentissem essa preocupação, implicaria a instauração de um horror que está além dos poderes de descrição. O preconceito é necessário para a manutenção da mais elementar decência”.

A educação superior, a perspectiva histórica também se inclui na leitura “desprovida de preconceitos”. Assim, “uma insatisfação presente é lida retroativamente, destinada a compreender e enredar a História (ressaltando o que for de interesse, claro). Se a história nada mais é do que o registro de extremas perversidades, então nada temos a aprender, exceto que nós, pessoas de indiscutível boa vontade, devemos fazer as coisas de forma diferente no futuro- fazer tudo diferente”. Quer dizer, até agora o mundo esteve desorientado e iludido, mas eis que chego eu com o meu ponto de vista, desprovido de qualquer influência maligna……Atitude de quem certamente nunca parou para pensar na revolução subjetiva de Descartes, ou no mito do bom selvagem de Rousseau….e das suas posturas messiânicas. A ignorância é mesmo atrevida…..mas como se apresenta de modo simpático e renovador acaba convencendo num ambiente de imensa pobreza cultural.  E ainda anota Dalrymple: “Os transgressores habituais das fronteiras não se opõem tanto a qualquer fronteira particular, mas à existência de fronteiras enquanto tal.  Infelizmente, o desejo de se furtar a uma convenção, é em si mesmo, uma convenção. É o velho tema da igualdade de todas as opiniões desde que sejam as suas”…(por sinal, ó título de um capítulo do livro, altamente provocador).

Eis um relativismo implantando sob o disfarce de livre-pensador, liberado de preconceitos. “O que manda é o que eu construo, ou melhor, o que eu quero, o que me apetece. “Vivemos a era do ‘quero, logo tenho o direito’. Ou, digo eu, ‘quero, logo existo’.  Nesse ditado está contido o motivo pelo qual será tão difícil a longo prazo colocar quaisquer fronteiras éticas aos avanços da medicina reprodutiva. O desejo é soberano, e ele governa no Versalhes da mente. Que objeções podemos levantar, por exemplo, aos feticídios praticados na Índia, uma vez que aceitamos a majestade da vontade individual? (…) Uma coisa é dizer que um preconceito é revoltante, e outra é dizer que podemos nos virar sem absolutamente qualquer preconceito. Como na medicina, havia no passado operações cirúrgicas que causavam mais danos do que benefícios, mas isso não implica abrir mão das vantagens salvadoras das cirurgias por uma questão de princípios”.

O livro contém, como sempre, exemplos práticos fruto de ampla experiencia de vida do autor, homem global, viajado, em permanente contato com um amplo espectro da miséria humana. Assim, por exemplo, relata o caso da moça que, fruto de uma educação rígida, optou por rejeitar todo tipo e forma de autoridade. O autor encontra-a no avião e sugere que vai tomar os mandos ao invés do piloto. Ela hesita, mas afinal qual é a autoridade que certifica o conhecimento e a experiencia do piloto?   Ficou claro que aquela pessoa que se dizia contrária a toda a qualquer autoridade, somente era contrária das que desgostava. E que a autoridade que ela realmente respeitava era a sua própria.

“O filósofo -diz o escritor inglês- é um arqueólogo do conhecimento, em vez de ser um construtor: ele desnuda as concepções equivocadas, as quais foram adicionadas desde o nascimento”. Algo Socrático que intui que a verdade está dentro de cada um desde o começo, vem de fábrica, não é tábula rasa, tem um sistema operacional, um certo manual de instruções como disse alguém, que garante o bom funcionamento. Não procedem os novos mandamentos (por exemplo, os ditados por Richard Dawkins) onde se recomenda que devo questionar tudo. Caso não o faça, não serei um ser racional, mas uma vítima do preconceito e da superstição.

Vale a pena anotar a conclusão que, após a leitura refletida destas páginas, sublinha Dalrymple: “Temos que ter, ao mesmo tempo, confiança e discernimento, para pensarmos logicamente a respeito  das nossas crenças herdadas, e a humildade para reconhecermos que o mundo não começou conosco, e tampouco terminará conosco, e que a sabedoria acumulada da humanidade é muito maior do que qualquer coisa que podemos alcançar de forma independente. A expectativa, o desejo e a pretensão de que podemos sair nus no mundo, libertos de todos os preconceitos e preconcepções, de modo que toda situação se apresente como algo completamente novo para nós, são em igual medida atitudes tolas, perigosas e nefastas (..)  Quanto mais rejeitarmos o preconceito por ser tal, mais difícil será para nós recuarmos das posições que tomamos, e recrudesceremos a fim de provar que estamos livres de preconceitos. Um dogmatismo ideológico será o resultado, e todos sabemos a devastação que um dogmatismo como esse pode provocar. É preciso ter capacidade de discernimento para saber quando um preconceito deve ser mantido e quando deve ser abandonado. Os preconceitos são como as amizades: devem ser mantidos em bom estado”.

Um livro de fácil leitura, com desdobramentos densos e atitudes práticas para exercitar logo de cara. E, mais importante, um livro para incorporar com conhecimento de causa, as verdades e os valores clássicos. Com criatividade, sim, mas sem falsos complexos de inferioridade.

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