Roger Scruton: “Pensadores da Nova Esquerda”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 19-05-2019

Roger Scruton: “Pensadores da Nova Esquerda”. É Realizações. S. Paulo 2014. 335 pags.

Já na apresentação nos advertem que Scruton sintetiza o trabalho dos intelectuais que analisa: um moroso farejar do intelecto ao redor de um santuário inatingível. Em sua obstinada luta para negar a realidade, um farejar verdadeiramente diabólico

De fato, este é o assunto. O leitor se lança na leitura do livro buscando encontrar a síntese da construção mental desses pensadores, mas o que realmente encontra é um duelo de alto nível, uma verdadeira disputatio (nos termos clássicos e medievais da palavra) onde Scruton põe a limpo todas as diferenças e dissenções que tem com cada um deles. Algo que, na prática, fica muito longe e distante, dificilmente acessível, ao leitor comum, mesmo com conhecimento do tema. São filigranas -certamente necessárias quando se argumenta com pensadores deste naipe- que escapam ao raciocínio comum. Não é, ao meu modo de ver, um livro de divulgação mas de consulta. Mesmo assim, vale um rápido passeio pelo livro -confesso que às vezes em diagonal, porque o tema requereria mais estudo do que leitura.

Adverte Scruton que o termo Esquerda, deriva da Assembleia dos Estados Gerais de 1789 quando na França, a nobreza sentou-se à direita do rei, e o Terceiro Estado à sua esquerda. E, a seguir, aponta: “O intelectual de esquerda é tipicamente um jacobino. Acredita que o mundo é deficiente em sabedoria e justiça, e que a falha reside não na natureza humana, mas nos sistemas de poder estabelecidos. Não há um simples pensador de esquerda que esteja disposto a responsabilizar-se pelas crueldades perpetradas em nome do seu ideal, embora todos sejam inflexíveis em afirmar que as crueldades de todo o ancien regime devem ser imputadas àqueles que o defenderiam”.

Logo a seguir, já no primeiro capítulo, explica algo que comprovamos diariamente, desde as manchetes dos jornais, até as discussões nas redes sociais -que por vezes atingem um nível lamentável, de baixo calão. “Não estamos negociando com um sistema de crenças sustentadas racionalmente. As proposições importantes do pensamento de esquerda são precisamente aquelas que não podem ser questionadas. São crenças colocadas além das ciências, num reino de absoluta autoridade, que jamais poderá ser acessado pelos não iniciados. A doutrina torna-se inseparável da ação revolucionária. Práxis é o equivalente marxista da fé”. Insistir nos argumentos como muitos ainda querem fazer, é um espasmo inútil, uma tentativa de apologia fadada ao fracasso. O sistema operacional desses gurus de esquerda é outro.

A seguir, Scruton mergulha na análise de diversos pensadores, dos quais tomo breves notas. Inicialmente os americanos: “O que estarreceu a crítica americana do capitalismo não foi a propriedade privada como tal -pois é pedra angular de sua independência tão estimada- mas, antes, a propriedade privada dos outros. É a propriedade privada em mão de pessoas comuns, decentes, rudes e incultas o que atribulou as percepções da esquerda.  A posição liberal da esquerda é tão obviamente correta que cabe ao conservador refutá-la, e não ao radical provar seus fundamentos. (…) O direito à dignidade de expressão é para proteger a dignidade dos dissidentes, de modo que ninguém possa protestar contra os postulados provocativos daqueles que não dão a mínima para os valores convencionais A voz do dissidente é a voz do herói; é em atenção a ele que a Constituição foi modelada.

A seguir pensadores que influenciam na educação e na psicologia: “A limitação forçada das crianças, em nome da proteção e do amor, foi sempre uma parte central da repressão reacionária, especialmente da classe burguesa. (…) O principal instrumento de agressão é a família, em particular, a família burguesa, que é paternalista e autoritária. A família gera o ódio do qual o esquizofrênico é o bode expiatório inocente. O doente mental é essencialmente inocente, e alguém, em algum lugar, é culpado pelo seu sofrimento”. E os arautos do Socialismo em suas diversas versões: “não importa o que está errado com o mundo socialista, não se trata do socialismo, que não pode estar errado, mas de algo mais , algo que usurpou o poder para o qual o socialismo havia estabelecido seus direitos impecáveis. O socialismo dos bolcheviques foi desviado de seus propósitos humanos. Estes pensadores são indiferentes à difícil situação dos indivíduos, mas são profundamente afetados pelos destinos das estruturas sociais”. Uma universal recusa a entender os fins da conduta humana, a subversão universal do fim pelos meios. Daí o liquidar, purgar, isolar, expelir. Quer dizer, é um diálogo abstrato, de surdos, que desprezam a realidade palpável….Isso que vemos nos jornais todos os dias, onde é patente que o rei está nu e ninguém quer dar por isso, principalmente, a corte desse monarca…..

Não poderia faltar Foucault e seu espasmo revolucionário: “a burguesia emerge como a defensora de uma ilusória normalidade, preocupada em proibir e oprimir todos aqueles que, ao desafiar sua normalidade (por exemplo, sua heterossexualidade, sua aversão à hostilidade e ao crime), desafiam também o domínio social e político que ela valida e dissimula”.  Faz-se referência à Escola de Frankfurt, para resgatar o que os nazistas haviam tentado destruir. Lá aparece o grande guru,  Herbert Marcusse, e as tentativas do marxismo humanista, como verdadeira alternativa ao estilo soviético.

E, naturalmente, Gramsci: “mostrou que os de esquerda são intelectuais e que os intelectuais de esquerda tem o direito de legislar. Sustenta uma das premissas indispensáveis do esquerdismo moderno, a saber : em virtude de meu conhecimento e inteligência superiores, eu, o intelectual crítico, tenho o direito de legislar sobre você, homem que meramente prejulga. Essa é a praxe marxista de corte intelectual, que busca esconder os crimes e enobrecer os motivos de seus figurões escolhidos, e se preocupa em estabelecer suas credenciais intelectuais e glorificar seus feitos”. A este propósito anota Scruton: “Existe uma grande semelhança entre esta atitude e o fascismo contra o qual diziam lutar. A diferença maior e histórica é que enquanto os governos fascistas chegaram mais frequentemente ao poder pela eleição democrática, os comunistas sempre o fizeram por um golpe de estado. O comunista divide com o fascista um desprezo primordial pela oposição: a proposta política não e viver com a oposição , mas liquidá-la”

Não faltam neste mergulho global os comentários relativos à Igreja e teologias libertárias: “Não surpreende descobrir que padres cristãos, que no século XIX viajavam para divulgar a estas criaturas a nova da salvação, agora repetem a viagem não como missionários mas como peregrinos, para louvar os que previamente tentaram converter. O camponês do terceiro mundo tornou-se o protótipo cristão da expiação de nossos pecados, a vítima pura e sofrida que possa nos redimir, desde que confessemos nossa falta mais grave. A tarefa redentora do socialismo é refazer o mundo à imagem dele, e também a seu favor (…) O terceiro mundismo ajudou a preencher a lacuna criada pelo desparecimento do proletariado industrial. Produziu uma vítima com a qual a classe média radical pode se identificar, bem como uma causa pela qual ela pode lutar”.

Incluem-se também personagens que são como “almofadinhas de esquerda”, ricos com preocupações sociais cujo desprezo pelo sistema não procede da inveja ou do sofrimento, mas da íntima confiança  de que não precisam das garantias frágeis que ele oferece. Sua riqueza, seu status e seu poder são herdados , e podem ser denunciados sem a menor autocrítica, já que o trabalho sujo de adquiri-los não foi feito por suas mãos” Lembrei daquele comentário do Joãozinho Trinta que “pobre é preocupação de filósofo”. Mais ou menos isso.

E finalmente Sartre, e a sua repulsa diante da existência incarnada. Comenta o autor que Santo Agostinho apresenta uma resposta melhor para esta questão, que a náusea niilista de Sartre.  É o sentimento de pecado original que causa nossa repulsa em relação ao mundo. Somos mais e mais envergonhados da nossa encarnação, sentimos nossa liberdade interior “contaminada” pelo contato com a carne, nos vemos como exilados no mundo , constantemente sobrepujados pelo cheiro da mortalidade. É a fria consciência da corrupção que leva o cristão a Deus, e leva Sartre, que não vê Deus, a seu santuário interno e solitário, onde o self é reverenciado em meio a desordenados ícones de seu fútil mundinho de faz-de-conta. Desejando somente o que é abstrato e “totalizado”, ele condenou o que é real à miséria e à servidão.

O resumo deste longo estudo está plasmado no que o autor define como o objetivo que o levou a escrever, e parece-me uma boa síntese. Trata-se de “familiarizar-se com a paisagem intelectual dos anos 1960 e 1970. A influência dos autores comentados, em nenhum modo corresponde a seu mérito intelectual; foram escolhidos pela sua capacidade representativa a não pelo mérito intrínseco. Essa análise implica em vagar por vastas áreas de território infértil e percorrer escassos e desérticos oásis. Tomei alguns atalhos, algumas vezes limitando-me a uma única obra, ou a uma pequena seleção de obras dos autores escolhidos, que penso ilustram os caminhos centrais do pensamento da Nova Esquerda. Espero que este livro poupe o leitor de algo da tortura mental que experimentei enquanto o escrevia, e que possa servir como um mapa deste inóspito terreno, no qual os riscos estão claramente definidos, e os poucos lugares agradáveis são remotos”. E concluiu com uma advertência que, levada em consideração, pode poupar de muitas dores de cabeça e de falsos sentimentos de impotência: “A Nova Esquerda não conversa com ninguém que não partilhe de sua cegueira moral”.

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