Diálogos com a Consciência: Dois filmes como largada de Reflexões

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 13-07-2019

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Locke. (Locke) Diretor: Steven Knight . Tom Hardy. 85 min. USA 2013.

Culpa. (Den skyldige). Diretor: Gustav Möller. Jakob Cedergren. 85 min. Dinamarca. 2018.

Vi os dois filmes há tempo. Mais de uma vez. A dívida vinha se acumulando, acrescida de juros: comentário de algum amigo, outros perguntando minha opinião, e até um cine fórum onde o amplo espectro de opiniões enriqueceu uma tarde de sábado. Diversidade de opiniões, expressão que incorporei na minha infância, vinda dos críticos das touradas, quando a festa nacional espanhola era ainda politicamente correta.

Alguém poderia perguntar: de que dívida você fala? Por que acumular dívidas sobre você mesmo ao invés de assistir tranquilamente os filmes, trocar duas impressões com quem está por perto, e passar para o próximo? Diríamos que é uma questão de consciência, por sintonizar com o tema que nos ocupa.

Há alguns anos li um ensaio denso e substancioso que abordava o tema da Liderança Ética. O que mais me marcou foi uma cita sobre a consciência. Impactou-me especialmente pela fonte: Nietzsche, quer dizer, nada suspeita. Utilizei-a muitas vezes em palestras, conferência, aulas….e para mim mesmo, pois disso se trata aqui. Referindo-se à atitude que chamaríamos exame de consciência (nem imagino como a denominaria Nietzsche) aponta: “Fiz isto, diz a minha memória. Não, eu nunca pude ter feito isto, diz o meu orgulho, e permanece inflexível. Finalmente, é a memória a que acaba cedendo.”

Talvez a dívida que sinto acumular-se e que me impulsiona a rascunhar estas linhas tenha a ver  com não permitir que a memória se apague; neste caso, nem tanto por orgulho, mas por omissão, por deixar o tempo passar e não contribuir para que outros coloquem o tema em pauta, e nas suas vidas.

Dois filmes curtos, de menos de 90 minutos. Produções em voo solo do protagonista, um monólogo, ou melhor, um diálogo do ator principal com a sua consciência. As outras intervenções -telefónicas, interlocutores que é possível ligar e desligar- são coadjuvantes. Somente a consciência se faz presente orquestrando as ações, as decisões, dando passo à verdade que irrompe de modo contundente. Uma magnífica metáfora que ilumina o cerne da opção moral, a raiz da conduta ética: a solidão do homem com a sua consciência, presidido pela verdade. Aquele diálogo do homem consigo mesmo, de que falava Hannah Arendt  invocando os clássicos  -Sócrates e Platão. Quando se omite, a falta de reflexão -que é diálogo com a consciência-  abre as portas para os desastres éticos, para a banalidade do mal.

Quer dizer: as calamidades éticas -como bem adverte Arendt- não são praticadas por demônios ou seres intrinsecamente maus, mas por pessoas normais….que silenciaram o diálogo com a consciência. Uma omissão, um esquecimento, sucumbindo ao orgulho que se encarrega de silenciar a consciência. Atitude que pode até se interpretar como fraqueza, como anota Stefan Zweig no seu famoso romance: “Comecei a compreender que neste mundo as maiores perversidades não são causadas pela maldade e pela brutalidade, mas sim quase sempre pela fraqueza”. A fraqueza do descuido, de fazer ouvidos surdos à voz da consciência. Mas que, antes ou depois, como adverte o escritor austríaco, acaba aparecendo e passando a conta: “Desde esse momento fiquei outra vez sabendo que culpa alguma está esquecida, enquanto ainda pesa na consciência”.

Não adianta delegar nos outros -que provavelmente também  têm o ônus da culpa- nem no sistema, nem nas circunstâncias que, no dizer de Ortega, embora caminhem ineludivelmente unidas ao destino do homem, é preciso salvá-las  para salvar-se a si próprio. Salvar as circunstâncias, não culpá-las, ou utilizá-las como álibi para não melhorar. As circunstâncias dramáticas de Ivan Locke que colocam em risco, não somente o prestígio mas a carreira, a família, a vida. E as de Asger Holm, o operador telefónico da polícia Dinamarquesa, a quem as circunstâncias trágicas lhe caem no colo, às vésperas do próprio julgamento, onde é acusado de homicídio.

Deparei-me nestes dias com um ensaio-conferência pronunciado anos atrás, por um conhecido jornalista, que foi porta-voz do Papa João Paulo II por mais de 20 anos,. Comenta: “somos sensíveis ao ideal de melhorar moralmente, conhecemos os aspectos onde essa melhora poderia afetar a própria vida. Sentimos a fascinação da virtude (…) Mas demoramos a resposta, esperando um cambio de circunstâncias -de trabalho, familiares, de saúde, ou de caráter- porque as circunstâncias que definem o momento biográfico atual não parecem adequadas para realizar o próprio ideal. Um dos maiores obstáculos -e dos mais frequentes- para não melhorar é o de pensar que não nos encontramos em circunstâncias adequadas para essa tentativa de melhora”

Também não é recurso delegar nas vozes de comando -abdicar da própria responsabilidade tornando-se pau mandado-  nem contentar-se com cumprir tabela e seguir processos e protocolos ao amparo da autoridade superior. Enquanto juntava as ideias sobre o filme, chega a notícia da próxima canonização de John Henry Newman. Oportuno momento para lembrar da famosa carta que o intelectual inglês dirigiu ao Duque de Norfolk, e o famoso brinde pela consciência. O cenário é conhecido: o político liberal inglês William Gladstone publicou um comentário acusando os católicos ingleses de não viverem a cidadania, preferindo obedecer ao Papa antes do  que à Coroa britânica. Norfolk pediu a Newman que intervisse no debate, e o futuro Cardeal escreveu uma magnifica  carta, onde afirmava que a consciência faz presente a verdade, por ser mensageira de Deus, a voz divina que fala dentro de nós. Os católicos -dizia Newman- devem seguir sua consciência, e isso implica também lealdade com o seu país. Não são escravos de ninguém, nem mesmo do Papa. E concluía: “Se sou obrigado a fazer um brinde após uma comida -coisa pouco provável- certamente brindarei pelo Papa, com muito gosto. Mas antes, brindarei pela consciência; depois pelo Papa”.

As lembranças do cine fórum naquela tarde de sábado, depois de assistir Locke, despertaram na memória uma tentação frequente, que é também um modo de esquivar-se ao diálogo com a própria consciência. Os erros do protagonista, e as tentativas de consertar os desastres, são prato cheio para julgar e, ao modo de um oráculo de Delfos doméstico, apontar os enganos e o que nós julgamos seriam as saídas honrosas. Quando de ficção se trata -como se fosse o método de um caso hipotético- ainda se justifica. Mas o problema é que essa atitude escorrega do hipotético para a vida real com extrema facilidade. Aventurar-se a julgar os outros -a dissecar a consciência alheia- além de imprudente e injusto, é muitas vezes expediente confortável para não enfrentar-se com a própria consciência. Recordei as sábias palavras de Marañón a este respeito: “Somente conhece os caminhos retos, quem já andou à deriva pelos tortos. E a melhor intenção não é a do homem impoluto, mas a daquele que tem na alma as cicatrizes de muitas retificações”. O médico humanista espanhol coloca, cirurgicamente, o dedo na ferida: para poder ajudar os outros, é preciso antes enfrentar-se corajosamente com a própria consciência.

É o único caminho, que traz a chancela da integridade, e revela a boa vontade de querer, de fato, ajudar os outros nos dilemas que a vida coloca. Enganar-se a si próprio é atitude frequente, que apresenta inúmeras variações, algumas até de corte filosófico moralista. Por contraste, copio aqui o parágrafo de um livro que o autor me presenteou numa vernissage, onde com elegante prosa mostra o diálogo do patrão com o empregado, a quem decidiu roubar a mulher. Mais do que convencer ao empregado, parece que está se convencendo a ele mesmo, e semeando dúvidas no leitor desavisado. Diz textualmente: “A lei estabelece as coisas por escrito. Registra no papel. Como o casamento. É letra morta e nós somos gente viva. E pra pessoa humana o que é que pode e o que não pode hem? Eu não discuto lei que para mim é sempre certa mesmo que não me sirva e não me favoreça. (…) A verdade da lei não alcança a verdade das coisas. O papel vale pra efeito do direito da pessoa mas papel não regula sentimentos. O direito escrito no papel é sobre coisas que não têm sentimento A lei da vontade não é igual àquela que está no livro. A lei que comanda o nosso sentimento é mais forte do que a outra”.

Deixa a lei para lá -quer dizer, deixa a verdade de lado- e apela para os sentimentos (os de este momento, depois pode ser que mudem), e toca em frente. Nada de letra morta e de moralismos, vivamos a criatividade dos sentimentos. Sugestivo, sedutor, mas falso. Porque se perde o gabarito que não é a lei morta, mas a consciência viva. Se Newman não antecede no seu brinde o Papa, também a lei não tem vez, como não o tem as circunstâncias. O protagonista -do brinde, e das decisões na vida- , o santuário das decisões é a consciência. Tremendo, arrepiante, mas definitivo.

Essa é a riqueza de reflexão que oferecem estes dois pequenos -grandes filmes. Sirva a recomendação: assistir um por vez, dando um espaço de tempo. São, como dizemos os médicos, uma espécie de pulso terapia: altas doses em liberação prolongada. Deixando as reflexões aflorar, serenamente, e modelar a consciência, fazendo-a adaptar-se à verdade.

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