Hannah Arendt: “A Condição Humana”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 09-04-2018

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Hannah Arendt: “A Condição Humana”. Forense Universitária. Rio de Janeiro. 2017. 400pgs.

 Ganhei este livro de um amigo que, certamente, já me ouviu falar de Hannah Arendt e conhece a minha sintonia com o pensamento da autora alemã. A Condição Humana não é um livro de fácil leitura, e reconheço que me permiti a liberdade de ler -por vezes quase de o folhear- de modo desordenado. Um mergulho enorme na cultura clássica, desde os gregos e romanos, até a atualidade, para basear seu pensamento. Erudição talvez necessária, mas que nos escapa aos mortais correntes, resultando uma fundamentação quase monolítica.

O livro propõe-se apresentar uma reflexão sobre a condição humana. Anota a autora na introdução: “Se comprovamos o divórcio entre o conhecimento (no sentido de conhecimento técnico) e o pensamento, passaríamos a ser escravos indefesos desse mesmo conhecimento, e até das máquinas que criamos. O que proponho nestas páginas e uma reconsideração da condição humana. A ausência de pensamento é uma das características mais notáveis do nosso tempo. Proponho algo muito simples: pensar o que estamos fazendo”.

Mas essa reflexão arrasta-se por caminhos árduos, de difícil compreensão. A diferença que estabelece entre os diversos posicionamentos da vida ativa, são o eixo sobre o qual gira todo o livro. Assim, o animal laborans, o homem que se esgota no trabalho do dia a dia, quase num fisiologismo laboral, é a postura ínfima. Segue-se o Homo Faber, que com seu trabalho produz coisas que perduram e persistem depois da sua existência. Ao contrário do animal laborans, cuja vida social e sem mundo é gregária, incapaz de construir ou habitar o domínio público, mundano, o homo faber é capaz de ter um domínio público pela sua atividade de construir o mundo. Finalmente, o estágio superior seria ocupado pela ação que gera originalidade e discurso. Quer dizer, alguém que tem um escopo na vida e o coloca convenientemente, e sua atuação requer a presença dos outros. Esse último é quem mais protagonismo tem no espaço público que, afinal, é o objeto dos estudos de Hannah Arendt, na sua filosofia política.

A vida ativa, que se concretiza na ação, não é ativismo febril nem simples busca de resultados, mas propósito de vida. “Para que o mundo seja um lar para os homens durante a vida na Terra, o artifício humano tem de ser um lugar para a ação e o discurso. No discurso e a ação os homens podem distinguir a si próprios como homens. Poderiam viver sem trabalhar, e sem fabricar nada útil. Mas não podem abdicar de uma vida sem discurso e sem ação. A ação desprovida do discurso renderia não homens, mas robôs executores de coisas humanamente incompreensíveis”.

Confesso que, talvez de modo simplista ou até para fazer de conta que captei sua mensagem, veio-me à memória a história do filósofo e dos três pedreiros. Todos faziam o mesmo, carregar pedras. Mas diante do interrogante do filósofo (Bom homem, o que andas fazendo?) a resposta foi diferente. Um dizia que carregava pedras; o outro que estava buscando o sustento da sua família. O terceiro, com ar solene e com orgulho disse: ‘o senhor não vê que estou construindo uma catedral?’.

O discurso de Arendt nesta obra é uma continua trajetória que busca esse sentido. Convoca filósofos de toda espécie, desde os gregos até os modernos, com destaque para Marx, pois em tratando-se do trabalho não quer deixar de apontar as dissonâncias que com ele tem. E, em todo o percurso, uma busca de sentido, de transcendência. “A diferença entre o homem e o animal se aplica à espécie humana: só os melhores (aristoi) preferem a fama imortal às coisas mortais. Esses são realmente humanos; os outros, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferece, vivem e morrem como animais.”. Mesmo o Homo Faber abre-se à transcendência quando cria objetos sem utilidade aparente, como as obras de arte que claramente ultrapassam o seu criador e perduram. É como se a estabilidade mundana se tornasse transparente na permanência da arte, com certo pressentimento de imortalidade. A questão central não é o que se faz, mas no modo como se executa e no motivo que leva a agir: “O rompimento com a contemplação foi consumado não com a promoção do homem fabricante à posição antes ocupada pelo homem contemplativo, mas com a introdução do conceito de processo na atividade da produção. A fabricação passou a ocupar o lugar que antes cabia à ação política”

Neste périplo filosófico para embasar seu pensamento, Arendt ressalta o que já sabemos na teoria, mas esquecemos na prática: o giro antropocêntrico que com Descartes deu a filosofia. O homem assumindo o protagonismo e a realidade passando a um plano dele dependente; uma preocupação exclusiva por si mesmo, e uma alienação em relação ao mundo. Esta atitude de convergir para o próprio umbigo como o centro do universo, foi facilitada pelas descobertas científicas, no século XVII, que assestavam um golpe desastroso sobre a confiança humana no mundo e no processo de conhecimento, perdendo-se as fronteiras entre o ser a aparência. “Depois que Descartes baseou sua filosofia nas descobertas de Galileu a filosofia parece condenada a seguir sempre um passo atrás dos cientistas e das suas descobertas, a cada qual, mais espantosa”.

O pensamento, a capacidade de pensar que é o que nos faz verdadeiramente humanos, e permite que a nossa vida goze desse predicado, é tema constante em Arendt. E isso é mesmo o que me conquista nesta autora. “O pensamento, para chegar a contemplação da verdade, num diálogo onde alguém fala consigo mesmo. O pensamento não tem outro fim além de si mesmo, e não chega sequer a produzir resultados. Não só a filosofia utilitarista do homo faber, mas os homens de ação entusiastas de resultados nas ciências, assinalam a inutilidade do pensamento, tão inútil como as obras de arte que inspiram (…) A atividade de pensar: algo que não precisa ser visto nem ouvido, mas que é a pura manifestação da vida humana”.

As implicações da vida ativa no domínio público são também analisadas com minúcia. Este é, afinal, e o tema da escritora que não gostava de ser considerada filósofa, mas uma estudiosa política e social. E aqui Arendt aventura uma tese que resulta desafiante, porque ultrapassa o plano social e político. “O domínio público, é sempre um desafio, porque a comunidade de massas vive num mundo que perdeu o poder de congrega-las. Encontrar um vínculo entre as pessoas, suficientemente forte para substituir o mundo, foi a principal tarefa política da primeira filosofia cristã. Agostinho propõe edificar sobre a caridade não apenas a “fraternidade” cristã, mas todas as relações humanas. Essa caridade corresponde à experiência humana geral do amor, embora se diferencie dele por ser algo que está no mundo, como os homens”. Hannah Arendt conhecia bem Agostinho de Hipona e o seu conceito de amor, tema da sua tese doutoral.

As consequências da honestidade no domínio público, são pauta que mereceria uma reflexão dos nossos políticos, hoje e sempre. “Se o mundo deve conter um espaço público não pode ser construído apenas para uma geração e planejado somente para os que estão vivos, mas tem de transcender a duração da vida de homens mortais. Sem essa transcendência em um potencial de imortalidade terrena, nenhuma política, nenhum domínio público é possível”. Onde ficam, nesta perspectiva, as mesquinhas intenções eleitoreiras, o imediatismo dos políticos que trabalham para si mesmos, para a própria fama, ou mesmo para o próprio bolso?

A projeção da própria vida no âmbito público, é um ônus e também um privilégio. Lembra-nos a autora que o privado era, nos tempos clássicos gregos, o que não merecia sair à vida pública, uma deficiência e não um privilégio como poderíamos pensar hoje. Daí que a divisão da vida -a dupla vida- seja um contrassenso no homem público. E em qualquer homem, pois a condição humana exigiria transparência. Sim, com as misérias patentes, também próprio do material humano, e com a dose necessária de imprevisibilidade, que gera constrangimentos. O remédio -diz Arendt- é a faculdade de perdoar, de prometer, de cumprir as promessas. O perdão não é uma reação, mas uma ação livre. Um ensinamento onde a pensadora judia não tem receio em apontar a Jesus como mestre do perdão.

O leitor encontrará certamente dificuldade em aplicar todo este arcabouço teórico na sua vida prática. A leitura -já o dissemos- é árida, e nem sempre fácil, pela tremenda erudição, saturada de citações. Mas o resultado, não desprezível, no meio desta constelação de ideias é a provocação para pensar, e refletir. Para que cada um se pergunte, seguindo a proposta de Arendt: “Afinal, o que estamos fazendo? O que eu estou fazendo?”.  Somente por isso, valeu o passeio pelo livro. Uma paisagem com aspecto desértico, mas que rende oásis de reflexão. Algo do qual carece a condição humana!

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