15h17: Trem para Paris: Heroísmo embrulhado na normalidade, realismo além dos protocolos.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 16-04-2018

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The 15:17 to Paris. Diretor: Clint Eastwood. Alek SkarlatosAnthony SadlerSpencer Stone. USA 2018. 94 min.

 

Quando li que Clint Eastwood estava fazendo um novo filme -antes de cumprir os 88, neste ano- não me surpreendeu. Ele só vai parar quando o enterrem. O amor ao cinema, a superação progressiva em qualidade, e o gosto pelas histórias que merecem ser desvendadas, fazem de Clint um trabalhador incansável. E de mim, confesso sem nenhuma vergonha, um fá incondicional do diretor Californiano.

Amor ao cinema, onde o gosto se vai refinando, e o fundo de valores substitui a ritmo fisiológico a toada dos primórdios que nos trazia o durão dos westerns spaghetti e o bronco Dirty Harry, o perseguidor implacável. Sim, tudo ao seu tempo, melhorando como o bom vinho, passando da pura ação para a direção, delineando os projetos.

Uma coleção de filmes e cenas associam-se na minha mente com os projetos de Clint que, por algum motivo, os considero de algum modo como meus. Aquela decolagem surpreendente com Os Imperdoáveis, os momentos inesquecíveis da dúvida romântica em As Pontes de Madison (quase um Casablanca moderno), as angústias éticas em Menina de Ouro, e as lições de liderança em Invictus, Cartas de Iwo Jima, A Troca. Nem sempre atuando, porque conhece os seus limites e, como diz Woody Allen, há papeis que eu ainda gostaria de fazer, mas a idade não permite. Mesmo assim, Eastwood encontra papeis que se encaixam no perfil octogenário -aliás, que somente se podem representar com essa idade- como Gran Torino e As Curvas da Vida.

Enquanto rascunho estas linhas vou apalpando o meu débito para com Clint, de quem emprestei cenas, dizeres e lições nas minhas aulas e conferências. Assim como me acontece com Spielberg, a quem já rendi tributo público em algumas atividades acadêmicas, reconhecendo em seu cinema uma trajetória de aprendizado em profissionalismo, em cumprimento do dever. Terei de pensar qual é o título que -por questão de justiça- colocarei quando decida juntar alguns dos muitos aprendizados que tive com Clint em um cenário acadêmico. Provavelmente será algo próximo de lições de liderança e superação. Mas esse é outro tema, que requer tempo e, principalmente, decisão. Não vou dizer que não tenho tempo -o que aparentemente é verdade- quando este homem continua fazendo filmes de impacto com 88 anos.

Maturidade, liderança serena, e nos últimos filmes, desvendar histórias. Lembro de ter lido -e comentado- que quando Eastwood ficou sabendo da façanha de  Sully, o piloto que conseguiu pousar o avião no rio Hudson, não lhe deu maior importância. Imagino que ele, como um americano pleno até o último fio de cabelo, pensou que essa era a obrigação dele. Foi somente depois, quando Sully tem de responder um processo por não ter seguido os protocolos de emergência previstos, que Clint decide fazer o filme, desvendar a história. É como um advogado das causas heroicas que o mundo estúpido, anestesiado com processos e protocolos, se empenha em não reconhecer.

O trem das 15:17 para Paris, é outra variante do mesmo tema. Três amigos de Sacramento (Califórnia), evitam um massacre que poderia ter sido enorme por conta de um ativista islâmico, durante uma viagem de trem, de Amsterdam a Paris. O feito em si, não é nada espetacular, e as cenas do filme dentro do trem não são nenhum exemplo de heroísmo nem de suspense. Tudo muito habitual, com gente normal que procura ajudar. A pegada do filme é justamente essa: os heróis são gente comum, ou até abaixo do normal. Eastwood nos descreve com detalhes os bastidores da história:  a amizade destas três personagens, os problemas que enfrentavam na escola por serem crianças que não se adaptavam, com déficit de atenção, criados apenas pelas mães, enfim, o que as avaliações de praxe faziam supor tratar-se de gente problemática, desencaixada. Isso é o coração do filme, o miolo; a viagem e o ato heroico, são apenas uma consequência, com poucos minutos de filmagem, refletindo o que foi na realidade: uma atitude rápida, conduzida sem nenhuma perícia especial -sem ações espetaculares nem agentes treinados. Mas eficaz, com resultados, que é o relevante.

Parece que a negação daquilo que é evidente -um ato heroico com risco da própria vida- por conta de protocolos e medidas avaliatórias é uma isca irresistível para Clint. É aí que ele entra, decide fazer o filme e, atenção, convoca os próprios protagonistas para interpretar o filme. Quer dizer, não são atores os que incarnam os três amigos que impedem a tragédia: são eles mesmos, interpretando a própria vida deles. Os atores são os restantes: os passageiros do trem, e os amigos quando crianças. É como se o velho diretor Californiano, enquanto homenageia aos seus conterrâneos, disse-se: vamos parar com essa estupidez toda de não querer enxergar o óbvio. Vamos nos liberar de essas regras e medidas, dessa visão ridícula que julga patológica e suspeita as vicissitudes da vida escolar, que são coisas normais.

Não tem nada a ver -ou de repente sim, sei lá- recebi de um grupo de colegas do colégio (todos espanhóis com mais de 60 anos) uma piada de Franco, o famoso generalíssimo ditador que governou o país por 40 anos. Dizia algo assim como: “Eu vos deixava fumar nos bares e aviões, deixava que sentísseis o vento dirigindo motos sem capacete, deixava ir às touradas e fazer paellas no parque, quando estavam um pouco alegres com alguma dose a mais no volante não acontecia nada…..E mesmo assim, vocês me criticavam, diziam que se vivia mal na Espanha, que não havia liberdade. Pois agora, …….f…….(grosseria muito hispânica que omito por respeito aos leitores)”. Deixando a piada aparte, é evidente que progredimos em segurança e em tecnologia. Mas o recado fica claro nas entrelinhas. Penso que Clint gostaria, e se tivesse o seu celular lhe enviaria um WhatsApp com a piada.

Da piada franquista -ou antifranquista, depende do ponto de vista- até as avaliações há também um caminho claro e evidente. Sem dúvida, é preciso ajudar as crianças e adolescentes nos problemas que apresentam no seu percurso escolar; é preciso melhorar a qualidade de vida com a prevenção das doenças, promovendo a saúde. É preciso facilitar uma vida saudável, sempre que seja possível, e isso é o que os médicos procuraremos fazer. Mas deve ser feito com bom humor, tirando importância aos problemas, procurando entender as limitações e misérias que todos os seres humanos arrastamos conosco. Ora, fazer da vida uma luta contra a patologia -ver doenças e disfunções em toda e qualquer variante da vida- é insano. Lembro daquela canção de Julio Iglesias -também da época de Franco- que dizia algo assim como “de tanto correr pela vida, e buscar soluções, me esqueci de viver”. Pois isso mesmo.

Vivemos mergulhados num mundo de avaliações e medidas, protocolos e guidelines que podem ajudar a conhecer o caminho das pedras. Mas, com imensa frequência -especialmente no campo da educação que conheço por ofício- o caminho se torna rígido, engessa, não mostra pedra nenhuma, e faz questão de ignorar as montanhas, vales, outros acidentes do terreno…. porque não estão contemplados no mapa. São, estes educadores, devotos dos mapas -em formato Google Earth, moderníssimo- mas desconhecem completamente o território. E quando paramos para ver o que andamos fazendo, nos surpreendemos contemplando mapas, como se de uma batalha naval se tratasse, e esquecemos das pessoas. É normal: a cartografia plana é manejável, enquanto o ser humano é sempre surpreendente. Mas é justamente da surpresa de onde pode nascer a novidade, a atitude heroica, o esforço imprevisto, o resultado favorável. Guiado por essas variáveis não quantificáveis que são a liberdade humana, a criatividade, e a força de vontade.

Estou tentado a dizer que quase desisti de falar estas coisas em fórum público acadêmico, porque gera tantos anticorpos que a situação se torna insustentável, e o incomodo que provoca minha atitude antigênica -logo na minha idade, que deveria se supor momento de conivência com o status quo- faz as pessoas armar-se na reação de defesa, perdendo o foco para analisar serenamente a verdade. Talvez por isso escrevo -quem quer ler, tudo bem; quem não também não acontece nada- para poder compartilhar estes pensamentos. Mas as poucas vezes que esqueço o propósito de escrever ao invés de falar, comprovo que os educadores põem as unhas de fora, como felinos acuados. “Temos que medir, avaliar os alunos, hoje é a bola da vez da educação. É o que nos é cobrado pela direção, pelo MEC, pela CAPS, pelo CNPQ”. Um sem fim de organizações e siglas que duvido façam perder o sono a alguém com um mínimo de sensatez. Mas podem fazer perder o emprego, e dai o assunto engrossa.  Ou talvez não: é o que, vez por outra precisamos, para recuperar o viço da vida, o encanto da realidade, a paixão verdadeira por educar.

No ano passado, quando estive em Moscou por conta de umas conferências na Universidade, passei do lado de um prédio enorme, iluminado, até senhorial. Meu amigo e colega professor disse-me: “Aqui era a KGB. Agora não tem mais perigo. Inclusive vendem um sorvete ótimo do lado. Não deixe de experimentar”. Uma associação de ideias que acode à mente enquanto escrevo, e que ilumina a liberdade de espírito para, de fato, ajudar as pessoas a serem melhores, que isso deveria ser a educação. Chega de KGB, e vamos tomar um sorvete, em Moscou, no final do verão. Uma variante russa daquela expressão tão conhecida entre nós: “Não dá para tomar uma Kaiser?”. Ou, com maior elegância e ironia fina, o comentário de Daniel Pennac, o educador francês politicamente incorreto, quando afirma: “Que pedagogos éramos quando não tínhamos a preocupação da pedagogia!”

Longe nos levou o trem de Paris: até os meandros da educação, e a neurose avaliativa. Penso que esse é o propósito do amigo Clint, e por isso me identifico com ele. Desvendar as histórias, saber quem está por trás, conhecer o universo insondável de cada ser humano, nas suas decisões e trajetória de vida. E para isso, limpar a área poluída de convencionalismos engessados e olhar com simplicidade a realidade que temos na nossa frente. Pessoas e ações que não costumam dar manchete de jornal, mas que quando faltam se produz o caos, e desperta a avidez da imprensa. É curioso como quando se cumpre o dever -quando se faz o que está ao alcance da mão porque nos sentimos chamados para isso- ninguém liga. Ou melhor, liga quem tem de ligar: Deus, a nossa consciência, e as pessoas que acabam sendo beneficiadas.

Estava finalizando estas linhas quando recebo um telefonema. Hoje é sábado de aleluia e, por coincidência, o meu aniversário. Digo-o sem vergonha, visto que decidimos falar com clareza. No telefonema, o amigo e colega médico, me comenta como no dia de hoje está se gestando uma revolução que eclodirá com a Páscoa, e aparentemente ninguém liga, não se faz barulho. “Assim são as coisas importantes -ele diz- vão se construindo por dentro, silenciosamente, fazendo a diferença na vida de tantas pessoas”. Agradeço e já aviso que tornarei público o seu comentário, pois me pegou escrevendo. Não porque me sinta merecedor do elogio, mas porque ao ordenar toda esta avalanche de reflexões reparo que, dentro das minhas limitações, procuro me incluir no time dos que trabalham para melhorar o mundo que nos cerca. Com tropeços e entraves, como todos nós. Como Clint, com seus 88 anos. Como cada um dos leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui. Dando o seu melhor, o que está ao nosso alcance. Tomando sorvete do lado da KGB, com uma Kaiser, e sem preocupações de falsa pedagogia

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