As Curvas da Vida: Capitalizando sabedoria com o passar dos anos.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 28-01-2013

Tags: , ,

     A estas alturas, depois do muito já comentado neste espaço, não é nenhum segredo a minha admiração por Clint Eastwood. Sou um fã do Clint; mas um fã com fundamento. Explico.
     Acompanhei, na minha adolescência e juventude, as caçadas implacáveis do Dirty Harry, armado com a Magnum 44. Cara de poucos amigos, insensível, machão formatado no melhor estilo americano- republicano: sem chance para os malvados, é preciso eliminá-los da face da terra. Um perfeito canastrão: bordoadas e físico atlético, triunfador com as mulheres que ousavam cruzar no seu caminho, que destroçava com um olhar de quem perdoa vidas ou, na melhor das hipóteses, as ignora. Não gostei; sentia até certa repulsa.
     Os anos passam, para o Clint e para mim. Os Imperdoáveis, filme duro e não dos mais digestivos, coloca Eastwood na direção, conquista um Oscar, e mostra que o durão da Califórnia pode até ter sentimentos. Sentimentos que se aventuram no romantismo em As Pontes de Madison – aquela encantadora versão caipira e bucólica de Casablanca-, sentimentos que se confundem diante da dor insuportável em Menina de Ouro, ou que se tingem de delicados traços femininos em A Troca. E com os sentimentos, o cumprimento do dever, da integridade, da honestidade e da missão. Missão em formato de guerra como As Cartas de Iwo Jima; ou na construção da paz em Invictus, ou na difícil guerra contra o próprio temperamento, na conquista de si próprio em Gran Torino. Sentimentos que também dão lugar a ensaios de transcendência em Hereafter.
     Evolução, coerência, maturidade, manter o foco. Esse é o fatorial que explica a minha admiração por Clint Eastwood. Em tempos, como os nossos, de mudança e de surpresas, onde a coerência brilha pela ausência e tantos sucumbem à tentação de negar a realidade da vida que se deteriora na base de cosméticos que a ninguém enganam; nesses tempos onde o “faz de conta, me engana que eu gosto” é lei comum, confesso que quem faz do seu amor pelo cinema um sincero reflexo da própria vida que se gasta, e se adapta às mudanças biológicas mantendo o ideal, supõe um atrativo irresistível.
      As Curvas da Vida é um mergulho antropológico, variação sobre o mesmo tema, brilhantemente encetado em Gran Torino. Envelhecer absorvendo as limitações que a idade impõe, com realismo. Sem fugas, nem maquiagens. Envelhecimento pautado pelas rugas que se contemplam diariamente no espelho, compassado pela artrose que patrulha os movimentos – todos eles, não nos enganemos-, e pelo deterioro do humor que se torna rabugento, suscetível, insuportável para os outros e para o próprio idoso.
     As Curvas da Vida é o título que com acerto traduz ao português o original: “Problemas com a curva”. Uma curva que é a da bola de baseball, lançada com efeito, dificílima de acertar. Clint é um olheiro caça talentos do baseball. Vive disso, é o melhor. Mas a vista lhe falha, limitação da idade. E agora? O outro fator da equação é Mickey (uma convincente Amy Adams), sua filha, órfã de mãe desde os seis anos, que cresceu com o pai, alimentada com baseball, rodeada de homens que bebem e falam palavrões. Agora uma advogada brilhante, perfil de executiva de talento, que entende de baseball tanto como o pai, pois foi essa a mamadeira que a nutriu. Esse é o contexto; o resto, somente vendo o filme.
     Como sempre, andei lendo as críticas que apareciam aqui e acolá, antes de ver o filme. Um hábito que talvez tenha que eliminar; traz mais problemas do que benefícios. Começas a ver o filme com os óculos que alguém te emprestou num comentário de esperto, até que reparas que sem óculos se vê muito melhor. Imagens turvas de óculos emprestados: Um filme sobre a terceira idade? Ou sobre o conflito de gerações, um pai que não se entende com a filha? Chavões simplificadores, óculos de camelô.
     “Olha quem fala – dirá o leitor. Você que fica dissecando os filmes sem pedir licença a ninguém, vem falar de óculos emprestados”. Está certo. Disseco os filmes, e disseco a minha alma junto com eles. Há duas coisas que, em consciência, procuro evitar neste espaço. Uma é contar o filme, narrar o argumento. Descobri que há quem evite ler meus comentários porque receia que lhe conte o final do filme. Precaução inútil; aliás, são muitos mais os que reclamam que acabo falando de tudo o que me dá na telha, sem sequer roçar o argumento. A segunda é catalogar o filme num chavão de prateleira: drama, comedia, romance, história real, ficção. O único que estes comentários pretendem é revelar a minha interação pessoal com o filme, as reflexões que me provoca, as surpresas que me descobre, e os ensinamentos para a minha própria vida. Reflexões em voz alta, mais nada. Se alguém quer pegar carona e dar a largada às suas próprias ponderações, será muito bem vindo. Longe de mim contar a história ou resumir o filme numa frase de efeito.
     A sabedoria de envelhecer sorrindo. Já utilizamos esta frase –emprestada de um autor moderno- para comentar neste espaço outros filmes que andam às voltas com os anos que passam inexoravelmente. E o pensamento surge novamente ao compasso dos fotogramas e no vai e vem das curvas da vida. É preciso aprender a adaptar-se às limitações, e não apenas ir tocando e fazer de conta que está tudo bem. Adaptação que implica um reconhecimento dos erros; dos presentes e, especialmente, dos passados que agora, contemplados com outra perspectiva, tem de ser sanados, purificados, para evitar que formem um quisto que degenera em tumor maligno e contamina de azedume todo o viver. Aceitar erros e limitações é o único antidoto possível contra a rabugice que, fatalmente, espreita e nos pega de jeito com o passar dos anos.
     A visão que se deteriora com a idade é uma bela metáfora das muitas outras limitações que vem de brinde conforme vamos completando anos. É uma perda gradativa que, na velhice, se revela completamente; mas não é repentina, acontece aos poucos. Saber reconhecê-la e adaptar-se, ano após ano, é construir a sabedoria que permite envelhecer sorrindo. Quem não treina durante a vida, na velhice passa muito pior, e faz passar mal aos outros. Daí que os ensinamentos do filme não são propriamente para a terceira idade, mas para os que querem preparar-se para chegar lá em forma.
     Cuidado com a tentação fácil de pensar: “Como são chatos os velhos. Isso não me vai acontecer a mim”. Tremendo engano. O tempo não perdoa, o desgaste chega para todos, mesmo para aqueles que, sendo jovens, consideram o assunto como preocupação que pode ser adiada. Vai acontecer com você, sim; e comigo, com todos. Quem não treina durante a vida, na velhice passa muito pior com as limitações. A limitação sempre vem; a diferença é o modo como se encara e se convive com ela, e se sintoniza com o que os jovens propõem que, sempre, desde tempos imemoriáveis, se enxerga como revolução.
     O cidadão sensato, no início da vida profissional, ocupa-se –sem chegar a preocupar-se, não está na idade para isso- com recolher a previdência, com vistas à aposentadoria. Complementa, quando pode, com recursos privados para garantir um mínimo de tranquilidade no final da vida. No vácuo das nossas reflexões vale pensar se uma provisão semelhante não seria necessária para envelhecer com um sorriso. É preciso preparar-se durante a vida, aceitar as correções, ouvir a opinião dos outros. Perde-se a visão nas curvas da vida; tentar ultrapassagens baseado na intuição pode ser fatal.
     É preciso confiar, escutar, ouvir o ponto de vista dos outros e, sobre tudo, o ponto de vista dos outros em relação a nós mesmos. Isto não é abrir mão da personalidade, nem delegar reponsabilidades atuando em função da Vox Populi. É simplesmente buscar ajuda nos conselhos de quem nos aprecia e dar facilidades para que nos digam as verdades, mesmo que doam. Para fazer isso não é preciso esperar a ser velho. Pode e deve se fazer com vinte, trinta ou com cinquenta anos. E quem não treinar nessas idades, certamente não aceitará a ajuda quando chegar aos oitenta. Humildade, essa é a grande questão de sempre. Desconfiar da própria opinião, que não é insegurança, mas a prudência de ouvir os conselhos, ponderá-los, para depois, bater o martelo.
     Preparar-se e capitalizar sabedoria para o futuro, para a velhice, é também descobrir o que quando jovem se pode aprender com os mais velhos, atitude que revela potencialidades ocultas das quais nem sequer se suspeitava. Amy aprende que além de ver as bolas é possível ouvi-las, escutar a sua trajetória e o impacto. Já disse alguém que somente se dá valor ao próprio pai depois dos 50 quando, com muita frequência, já não está entre nós. Boa sabedoria a de conseguir adiantar esse tempo, e desentocar o que aprendemos com nossos pais, e pôr para render esses talentos. Para isso é preciso comunicar-se, ouvir as historias de vida –mesmo as que conhecemos de cor- pois nelas se encerra esse tesouro do qual as nossas potencialidades fazem parte. Sem entocar-se, sem fechar o diálogo como solução standard.
     Nesse diálogo de gerações –construtivo e necessário- entende-se também que o tempo de cada um é diferente. Cada um tem o seu timing, o ritmo para entender e assimilar as coisas. Uma lembrança profissional. Sempre procuro advertir os jovens médicos que me rodeiam nos afazeres quotidianos que o consenso familiar é algo que não existe. Os médicos se reúnem numa junta médica e chegam num consenso. Mas na família, salvo honrosas exceções, esse consenso não existe: cada membro da família pensa de modo diferente, contempla as circunstâncias desde perspectiva variada, tem timing distinto para assimilar a realidade. Cabe ao médico facilitar a comunicação entre a própria família para que, sintonizados os timings, se chegue á melodia do consenso que realmente beneficiará o paciente.
     Capitalizar sabedoria ao longo da vida, num treino incansável, para adaptar-se às limitações que a idade impõe; saber sorrir, conviver, aprender. O tempo todo, a toda hora. E decidir, com essa sabedoria, sobre as prioridades e optar por aquilo que realmente vale a pena em cada momento.
     Essas e muitas outras reflexões despertou em mim Clint Eastwood, com o baseball e as bolas em curva, com efeito. Sem traumas, nem conflitos, nem complexos, nem lutas de gerações: apenas a vida, com as suas curvas, seus dilemas, que não tem porque acabar mal. Depende de cada um. Dos velhos em gastar-se com classe, dos jovens aprendendo a crescer. Tudo servido num filme delicioso, que deixa um agradável sabor de boca.

(Troubles with the curves) (2012). Diretor: Robert Lorenz. Atores: Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake, John Goodman. 111 minutos. IMDB: http://www.imdb.com/title/tt2083383/

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
  • Pedro Acosta Baldin

    Estou muito ancioso para ver esse filme, que como ja pude perceber em seus filmes, Clint Eastwood vem cada vez mais evoluindo em suas temáticas e percepções da vida.

    VA:F [1.9.22_1171]
    Rating: 0 (from 0 votes)