INVICTUS: Liderança e Cuidados, fazendo as pessoas melhores.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 10-03-2010

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Invictus.  Director: Clint Eastwood.  Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern. 133 min.

      Li em algum lugar que Clint Eastwood, depois de Gran Torino, disse que não faria mais filmes. Já estava tudo dito, e o testamento escrito magistralmente, porque Gran Torino é mais do que um filme: é a história de Clint, sua evolução como cineasta, como ator, como pessoa. Abre o seu coração, toca fundo no espectador. Pode ser que quando anunciou sua retirada, se referisse apenas a não atuar novamente. Ou pode ser que não falasse nada, simplesmente respondesse com silêncio às respostas dos jornalistas que, naturalmente sentem-se autorizados a interpretar o mutismo como melhor lhes parece. Seja como for, o fato é que uma história forte é para Eastwood uma tentação à qual não faz nenhuma questão de resistir. Agora, de repente, chega Invictus, como um belo apêndice de recados.


      A história de Nelson Mandela é bem sabida. Têm livros e filmes que relatam com detalhe a trajetória do líder Sul-Africano, os 27 anos de prisão, sua chegada á Presidência do país inaugurando a democracia que, mesmo aceita no papel, teria de se abrir caminho nos corações de todos para abolir os miasmas do apartheid que tinham infectado gerações. A liderança de Mandela é conhecida. O episódio relatado no filme, também. A novidade –e o encanto- é o modo como Clint Eastwood a oferece, servindo-a através de uma interpretação fabulosa. Morgan Freeman desaparece da tela em questão de minutos, e permanece apenas Mandela, falando inglês com sotaque sul africano. Quando um ator consegue tamanha transparência, e permite ver a personagem sem nos lembrar de quem a encarna, estamos diante de uma obra mestra de interpretação. Somente por isso vale a pena ver o filme. Mas tem mais, muito mais.

      O argumento narra um fato real. Em 1995, a Africa do Sul foi sede da Copa do Mundo de Rúgbi, esporte praticado principalmente pelos brancos –os que foram opressores no regime anterior- e, por esse motivo, detestado pelos negros, que agora estão no poder. Mandela quer aproveitar a oportunidade para fomentar uma integração que, de fato, não existe. Um time, um país; será ao lema promovido pelo próprio Presidente. Levanta a bandeira e veste a camisa da equipe de Rúgbi apesar das críticas, e pede ao time, em troca, que dê o melhor de si para sair vitorioso. A estratégia política é original, oportuna. Mas, colocá-la em prática exige muito mais do que simples articulação de governo. A equipe de Rúgbi é fraca, desmotivada; a população e as lideranças negras negam apóio ao que consideram um símbolo dos anos de opressão. Será necessário chegar até as pessoas chave, para num tête-à-tête, ajudá-las, tirar delas o que de melhor têm, alavancar a ação de cada um. Uma verdadeira preceptoria de motivação ou, como se diz hoje, um coaching de primeira linha.

      Ai está o encanto da história que Eastwood nos conta. A liderança e a projeção do homem público são notórias; mas pouco se fala dos bastidores que estão por trás de um líder, de um formador de pessoas. Bastidores estes que envolvem o cuidado com cada um dos que a ele estão confiados, em dedicação atenta. Esse é o segredo da verdadeira liderança, a única garantia de sucesso. Acontece algo análogo ao fenômeno da interpretação do ator, antes comentada: a estrela desaparece, deixando lugar à personagem. Seja um governante, um CEO, um professor; é preciso transparência, para deixar que brilhem os talentos dos que são guiados. Quando falta, o líder poderá brilhar sozinho, mas é fogo de palha, luz efêmera. O flamejar duradouro de um líder é sempre reflexo das luzes que ele ajudou a acender à sua volta. Bem explica isso um breve pensamento de um Santo dos nossos dias: “De longe atrais, porque tens luz; mas de perto repeles, porque te falta calor. Uma pena!”. Falta o calor, densidade de valores pessoais, que é capaz de transformar os que o rodeiam, em pessoas melhores.

      As histórias vêm à nossa mente ao ritmo dos fotogramas do filme. Faz um par de anos, um jovem colega médico, que tinha conseguido vaga como professor numa faculdade procurou-me para pedir conselho: “O que tenho de ensinar aos alunos?”. Talvez esperasse algumas sugestões de temas chaves, de conhecimentos imprescindíveis. Olhei para ele sorrindo, e disse: “Faça deles pessoas melhores; desse modo, certamente serão bons médicos”. Ficou por isso mesmo, mas a história não acaba ai. Justamente nesta semana, encontrei com o colega num final de tarde; o notei cansado, pensativo. “São muitas emoções – disse-me de bate pronto- que estou tentando digerir. Os alunos estão apresentando seminários, com textos que lhes enviei; conheço bem os artigos, alguns eu mesmo escrevi, e todos foram escolhidos por mim. Mas a apresentação tocou-me fundo, me fez refletir; não esperava tamanho desdobramento.” Um belo exemplo de coaching eficaz que surpreende o professor quando vê que o aluno o ultrapassa, brilha com luz própria.

      Liderança –já foi comentado outras vezes neste espaço- é conceito que sofre desgaste de lugar comum. O mundo da gestão corporativa adotou o termo com perspectivas de fazer bons negócios com ele. O mundo político também o encampou, abrindo possibilidades nunca sonhadas para demagogias populistas inconsistentes. O suposto líder perde assim sua função de construtor de pessoas e catalisador de sonhos (sonhos dos outros, se entende) para transformar-se no gestor de resultados. Persegue objetivos no macro, passa por cima das pessoas, despreza os detalhes. E se converte em alguém que, mesmo reconhecido, até admirado, não é querido por ninguém. Não que isto venha lhe tirar o sono, pois sempre é possível convencer-se de que sendo líder, é normal ser um solitário incompreendido. Afinal, liderança –pensam eles com seus botões- não é coisa para qualquer um.

      Invictus aponta para uma liderança que é cuidado fino, atenção pessoal, verdadeiro coaching –palavra que logo cairá também no desgaste conceitual, pois o nosso mundo não perdoa. O verdadeiro líder não é um gestor macro, mas alguém que olha com carinho no micro, na pessoa, em cada um, no interior. Não lhe interessam estatísticas, nem apenas resultados de conjunto, embora saiba que deverá prestar contas, porque o mundo é assim avaliado. Vai atrás de cada um, e tira dele o melhor. E o mundo melhora assim, mais do que com políticas globais. Basta ver as histórias que todos os dias vivemos: a diferença chega sempre da melhora das pessoas, nunca do suposto desenvolvimento das estruturas.

      Um amigo, com longa experiência em aconselhamento familiar, comentou-me sua técnica infalível quando alguém lhe procura para uma orientação, por exemplo, no relacionamento do casal. Se o cliente é o marido –vale dizer que utiliza coaching individual sempre, não de grupo- que, naturalmente, reclama dos defeitos da esposa, a proposta é clara e rápida: “Muito bem, admitamos que sua mulher tenha esses milhares de defeitos; por ora nada podemos fazer com eles. Vamos nos centrar nas duas ou três deficiências que você diz ter, e vamos ver no que dá”. E os resultados são surpreendentes e, como por arte de mágica, até os defeitos da mulher parecem diminuir com o tempo. Quando a cliente é a mulher, tudo se passa de modo análogo. Outro exemplo de boa liderança, de coaching eficaz: colocar alguém na frente das falhas e ajudá-lo a melhorar.

      Na verdade, isto não tem nada de original. É coisa sabida e muito bem comentada naquele livro de sucesso sobre as pessoas altamente eficazes de Stephen Covey. Tudo funciona melhor quando nos centramos no círculo de influência, no âmbito onde realmente podemos fazer a diferença e temos possibilidades de atuar. Afligir-se por aquilo que está fora da nossa alçada, além de distrair-nos, suga eficácia das ações que estão ao nosso alcance. Mas, ser coisa sabida, não significa que seja fácil de executar. Afinal, trata-se de encarar com realismo o interior de cada um, por em pratos limpos o que deve melhorar, e atacar os defeitos com perseverança. E essa faxina interior costuma doer.

      Ai é onde entra o líder cuidadoso com o coaching que promove o crescimento. Adentra-se na vida dos outros com suavidade; aposta nas possibilidades de cada um –que aprendeu a conhecer- e tira deles o que de melhor tem. Como Michelangelo extraia o Moises do interior do bloco de mármore; estava lá, mas havia que sacá-lo para fora.

      Liderar pessoas, não sistemas. Fazê-los melhores, focar-se no detalhe. E neste empenho o líder tropeça com dificuldades que o sistema lhe apresenta – é sempre uma ameaça à pseudo-liderança da mediocridade. E dificuldades que surgem das suas próprias limitações. Por isso a verdadeira liderança, começa por nós mesmos. Mandela escreve o poema da época vitoriana –Invictus- como inspiração para o capitão do time de Rúgbi, e como lembrança do seu esforçado caminho. Lá se falam dos golpes do acaso, de um lugar de ira e lágrimas onde os horrores se multiplicam e a cabeça sangra. Sangra mas não se abaixa, diante das circunstâncias, porque a sua alma é inconquistável.

      Alguém que tinha acabado de assistir o filme, comentou-me: “Você sai bem do filme”. Dizia-o sorrindo, feliz. Pode parecer um comentário simples, mas não é pouco. Ser transformado por uma experiência, sair bem dela, com disposição para enfrentar a vida com otimismo e esperança, não é de se desprezar. Menos nos dias de hoje, saturados de negatividade. Talvez saímos bem, porque nos sentimos cuidados, estimulados. Talvez Clint Eastwood nos conta a história e se mistura com Mandela e com Morgan Freeman empenhados em fazer de nós pessoas melhores. Ou talvez são os versos finais de Invictus: “Eu sou o mestre do meu destino, Eu sou o capitão da minha alma”. Eles ecoam nos créditos finais e nos gritam: é hora de parar de reclamar das estruturas e dos sistemas, e chamar a nós o peso da responsabilidade de fazer um mundo melhor.

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  • Leila Strazza

    Pablo
    Eu AMEI este filme e as frases abaixo tbém, chamaram a minha atenção:
    “Eu sou o mestre do meu destino,
    Eu sou o capitão da minha alma”.
    Concordo PLENAMENTE com vc que:" é hora de parar de reclamar das estruturas e dos sistemas, e chamar a nós o peso da responsabilidade de fazer um mundo melhor."

    bjos,
    Dra. Leila Strazza

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  • Leila Strazza

    Pablo
    Eu AMEI este filme e as frases abaixo tbém, chamaram a minha atenção:
    “Eu sou o mestre do meu destino,
    Eu sou o capitão da minha alma”.
    Concordo PLENAMENTE com vc que:" é hora de parar de reclamar das estruturas e dos sistemas, e chamar a nós o peso da responsabilidade de fazer um mundo melhor."

    bjos,
    Dra. Leila Strazza

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  • Antonio Junqueira

    Já vi vários comentários, mas este realmente me deixou louco de vontade de ver o filme e principalmente de enviar este comentário a vários amigos e colegas.
    Obrigado Pablo

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  • Pingback: Cinedebate – Filme: Invictus – Clint Eastwood « Casa de Familia

  • Geovanca

    Assisti este filme na faculdade, na aula de comportamento organizacional e é um exemplo para quem pensa em liderar pessoas, realmente “Você sai bem do filme”, com vontade de mudar o mundo, as circunstâncias, se cada um de nós dessemos um pouquinho para fazer deste mundo um pouquinho melhor, quem sabe… um dia…. tudo irira dar certo. Este filme é mesmo motivador…..

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  • Comissariaana

    Bom dia Doutor…

    Suas palavras me foram muito válidas em meu trabalho de Liderança para minha faculdade…Sao um primor!
    Obrigada
    Ana
     

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